VERDE DA COR DO CÉU

céuSer feliz ou ter razão, o que você escolhe? Foi o que venho em meu biscoito da sorte, o que eu estranhei, pois esperava uma frase bonita que me faria feliz por alguns segundos, mas uma pergunta? Quem coloca uma pergunta no biscoito da sorte? Juro que prometi a mim mesma nunca mais voltar naquele restaurante, afinal eu nem queria estar ali mesmo. Era aniversário da minha prima Jenifer, que já não era uma das pessoas que eu quisesse desperdiçar minha sexta à noite, mas mamãe disse que era importante mostrar que valorizamos a família e que toda aquela união era verídica. Não sei qual a dificuldade que as pessoas têm em ser sinceras, e talvez esse seja meu carma, ser muito sincera. Não me entenda como arrogante, por favor! Não preciso que você também me julgue. E também sei que tenho somente dezesseis anos, e que tudo isso pode parecer coisas da puberdade, mas você ainda não conhece minha história.

Toda a família estava presente, excerto meu primo, Charlie, que de longe era a pessoa mais legal da família. Todos riam muito com as piadas do tio Nevir, que é pai de Charlie, e ainda não sei o porquê deles não se darem bem, na verdade Charlie parece odiar o pai, mas lembro de que isso começou depois da morte de sua mãe, Catarine que era uma pessoa maravilhosa, talvez uma das melhores que já conheci, mas morreu antes que seu filho chegasse à adolescência. Por que as melhores pessoas possuem as histórias mais tristes?

Logo após cantar parabéns para a prima Jenifer meu irmão, Demis,  chegou com sua nova namorada e que talvez deixasse de ser daqui algumas horas, meu irmão tem uma filosofia muito estranha de vida e principalmente de como não se apegar a nenhuma garota. Mas que me chamou mais atenção na festa foi a necessidade de levar um bolo para um restaurante Chinês, isso é coisa da tia Carmem.

Papai resolveu ir pra casa logo cedo, acho que essa é umas das melhores coisas do meu pai, ele é muito pacato e não gosta dessas comemorações em família, ele prefere ficar em casa enfrente a sua TV vendo as notícias. Meu pai é pintor, mas atualmente está aposentado, o que é muito triste porque eu sempre achei suas obras lindas. Mamãe disse que quando o conheceu ele tinha um espírito extremamente empolgante e juvenil e o que a mais encantou foi a vontade de viver, e hoje ele é um homem muito triste.

Quando eu era pequena vi uma das pinturas de meu pai que era toda borrada, mas era a que papai mais gostava, e eu nunca entendi muito o porquê, já que eu sempre a achei feia. Um dia eu estava brincando com minhas amigas na varanda de casa, um jogo chamado “eu completo melhor”, nesse jogo você tinha que encaixar palavras nas frases e quem formasse as melhores frases ganhava a brincadeira, e umas das frases era “o céu é…” quem completou primeiro foi minha amiga Candice, que sempre foi uma menina muito cheia de si mesmo, e logo respondeu com o nariz em pé.

– O céu é lindo! – e olhou pra mim como se pensasse – quero vê você pensar em algo melhor.

Depois de Candice quem jogou foi Larissa, respondendo.

– o céu é azul! – Larissa sempre foi assim, só constatava o que todos já sabiam. E Finalmente chegou minha vez.

– O céu é verde! – falei com toda a certeza da minha vida que ganharia aquele jogo – e todas as meninas começaram a rir de mim, e sem entender sai correndo e me tranquei em meu quarto aos prantos. Papai assistindo a cena subiu logo as escadas em direção ao meu quarto para saber o que tinha acontecido.

– Rebeca o que aconteceu? – falou ele com aquela voz carinhosa que só pai e mãe sabem fazer pra desvendar todos os segredos de filho.

– Vai embora! – gritei quase que incompreensível pelo tanto de lágrimas e soluços que eu não conseguia conter naquele momento.

– Vamos conversar Rebeca – todo carinhoso como sempre.

– Não! – berrei de uma forma desagradável com quem só queria me ajudar, mas eu era uma criança e a gente ainda não entende dessas coisas quando somos pequenos.

– abra esta porta agora! – falou ele com o tom da voz mais agressiva – eu não estou pedindo, estou mandando! – advertiu ele.

Depois disso resolvi me acalma para abrir a porta, afinal quem não atenderia a uma ordem dessa? Destranquei a porta e sai correndo de volta pra cama e em mais choro – acho que eu era muito mimada nesta época.

Papai sentou-se ao meu lado na cama e começou acariciar meus cabelos permanecendo em silêncio por alguns minutos esperando até meu choro parar. Ele sempre fazia isso e sempre funcionava, acho que às vezes eu gostava de chorar só para poder ter esses momentos infinitos com meu pai, e tenho muita falta disso hoje, mesmo que eu nunca tenha dito a ele.

– o que aconteceu, Rebeca? – perguntou quebrando o silêncio.

– as meninas, papai, elas riram de mim – ainda com voz de choro, mesmo que já tivesse parado de chorar a alguns minutos.

– o que elas fizeram com você? – insistindo ele para saber o que realmente tinha acontecido.

– elas riram de mim só porque eu disse que o céu é verde.

– Mas o céu é vermelho! – exclamou ele com um sorriso no rosto – você precisa aprender que as pessoas enxergam o que acham melhor para elas, é mais fácil aceitarmos aquilo que achamos que merecemos e aquilo que parece ser mais fácil. Mas o meu céu não é o mesmo que o seu, assim como a minha verdade não é a mesma que a sua.

Fiquei parada olhando para o meu pai, e o que me vinha à mente é que ele era a melhor e mais inteligente pessoa do mundo. Ele sempre tentou me mostrar um mundo com outras vertentes, e lembro-me que ele dizia que não existe essa coisa de “normal”, isso é só uma invenção que nos impede de sonhar. Meu pai é um verdadeiro sábio.

– E se elas não entenderem isso? – perguntei, ainda preocupada com a opinião das outras pessoas.

– Elas não vão entender, mas esse não é um aprendizado pra elas neste momento. – alisando meu cabelo mais uma vez – e não se preocupe uma hora todos nós entendemos, mesmo que a gente não queira.

Alef Jordi
Alef Jordi

Estudante de Letras, criador do blog Qualquer Coisa Vira-lata, Potterhead assumido e um sonhador sem limites. Sonha em publicar um livro antes dos 30. E ama promover ações sociais.

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