TAL QUÍMICA – CAP. 3

tal química

I am unwritten, can’t read my mind, I’m undefined

I’m just beginning, the pen’s in my hand

ending unplanned

Staring at the blank page before you

Open up the dirty window

Let the sun illuminate the words that you could not find

Reaching for something in the distance

So close you can almost taste it

Release your inhibition

Feel the rain on your skin

No one else can feel it for you

Only you can let it in

No one else, no one else

Can speak the words on your lips

Drench yourself in words unspoken

Live your life with arms wide open

Today is when your book begins

The rest is still unwritten

(Unwritten-Natasha Bedingfield)

Estava chegando o dia em que Gael voltaria para casa. Ele fazia intercâmbio nos Estados Unidos há seis meses. Apesar de saber que o meu amigo estava feliz da vida aproveitando seus dias na terra do tio Sam, eu e as meninas morríamos de saudades dele.

Como nosso amigo era bastante festeiro, queríamos caprichar na festa de boas vindas. Como ele também era viciado em cinema, nada melhor do que fazer uma festa à fantasia. Cecília era a responsável por escolher todas as músicas que tocaria. Ela e Gael tinham praticamente o mesmo gosto musical, o que era ótimo, assim ele amaria tudo que tocasse. Já a Marcelinha tinha ficado responsável pelas comidas, ela era bastante detalhista e já tinha começado a preparar uns docinhos personalizados com o tema cinema. Alice faria uns painéis, Vic pintaria uns potinhos que ficariam nas mesas. Enquanto isso, eu faria os convites e depois iria ajudar a Alice a fazer coxinhas.

Eu tinha feito metade dos convites na casa da Vic. Eu não podia negar: ela arrasava! Além dos potinhos, ela começou a fazer um quadro com o desenho do Gael. Eu não tinha dúvidas: o meu amigo iria amar. Antes de ir para casa da Alice eu precisei ir ao shopping comprar uns papeis para terminar os outros convites. Comprei tudo o que faltava, eu passaria a noite inteira terminando os convites.

Era mais ou menos quatro da tarde quando eu resolvi parar na praça de alimentação. Eu estava em dúvida se compraria na loja de pastel ou na de sanduiche, quando avistei, sentado na mesa, às duas pessoas que eu mais detestava nos últimos tempos: o Oscar e a Bárbara. A vontade que eu tinha era de matar aqueles dois, mas eu não queria que o Oscar pensasse que eu ainda gostava dele. Sendo assim, para evitar fazer alguma besteira eu dei meia volta.  Estava tão desligada que nem reparei que na minha frente tinha outra pessoa, a desastrada aqui acabou trombando em um desconhecido que era alto – a sorte era que nenhum dos dois carregava comida, senão o estrago estava feito. –  Eu levantei a cabeça para me desculpar e descobri que ele não era tão desconhecido assim.

-Desculpa! –Eu falei – Quando olhei para o “desconhecido” vi que ele estava rindo.

-Oi, Isa, prazer em te ver de novo. –Ele abriu um enorme sorriso, mas apesar de ser tentador ficar admirando aquele sorriso, eu não conseguia desviar daqueles olhos verdes intensos.

-Oi, Bernardo, desculpa novamente. –Eu fiquei meio sem jeito. –Bom eu tenho que ir.

-Você já lanchou?

-Na verdade eu desisti.

-Por quê? –Ele me olhou com cara de interrogação.

-Não queria comer sozinha. –Eu dei um meio sorriso.

-Eu posso te fazer companhia. Também não quero ficar sozinho. –Ele me encarou, sua expressão era de que queria que eu ficasse.

-Eu aceito sua companhia. –Eu sorri, ele retribuiu com o enorme sorriso.

Fomos até a lanchonete, acabamos optando pelo sanduiche da SubWay. Como sempre, escolhi o de peito de peru, já Bernardo, pediu um sanduiche de carne. A praça de alimentação estava lotada, mas assim que vagou uma mesa Bernardo não perdeu tempo e sentou. O problema é que a mesa ficava próxima da do idiota do Oscar.

Bernardo era uma ótima companhia. Conversávamos de tudo um pouco. Ele me contou que tinha trancado o período passado já que precisou viajar para a Europa, o seu avô estava doente e como ele era apegado ao neto queria que o menino ficasse próximo. O mais interessante de tudo isso é que Vinícius foi junto, pelo que eu entendi o avô de Bernardo considerava Vinícius também como neto. Eu também falei um pouco sobre a minha paixão por arquitetura, mas percebi que a atenção de Bernardo estava voltada para outra coisa.

-Isa, é impressão minha ou aquele cara não para de te encarar? –Ele se referia ao Oscar que realmente me encarava.

-Está sim. Ele é meu ex-namorado.

-Acho que ele não queria ser seu ex.

-Ele não tem o que querer. –Eu falei. –Estar vendo aquela garota com ele? Ela foi um dos principais motivos pelo nosso término.

-Ele te traiu? Que otário!

Eu não consegui conter o riso. Bernardo olhou para mim sem entender nada.

-O que foi que eu fiz?

-Desculpa o machismo, mas é que você é homem e “deveria” defender o Oscar.

-Não mesmo, Isa. –Ele tinha ficado revoltado. –Olha eu não sou um cara que namora, estou em uma fase em que eu só quero ficar, mas uma coisa é certa, quando eu me envolver de fato com uma garota vai ser para valer. –Ele parou para respirar. –Eu vou amar e respeitar a garota. Se não der certo é melhor terminar com respeito mútuo. –Ele me encarou.

Eu fiquei encarando ele durante um tempo. Bernardo com seus lindos cabelos rebelde e seus olhos verdes intensos e esse sorriso que continha covinhas se mostrou um homem cheio de princípios.

-O que foi, Isa? –Ele me tirou dos meus pensamentos.

-Você me surpreendeu. É bastante maduro e aparenta saber respeitar uma mulher.

-E eu respeito.

Eu sorri verdadeiramente para ele. Naquele momento me lembrei do que ele tinha falado na fila do cinema sobre eu ser a famosa Isa.

-Bernardo, por que você disse que eu era a “famosa Isa”?

Ele passou a mão pelos cabelos. –É uma longa história. –Quando eu e o Vinícius conhecemos a Cecília ela nos apresentou a Marcela, a Alice e a Vic e disse que faltava a Isa e o Gael para o grupo ficar completo. Aí elas falaram que o Gael estava fazendo intercambio, e você estava em Minas dando uma renovada na sua vida, depois de ter rompido um namoro.

-Sério que elas contaram tudo isso? –Eu estava chocada. –Bando de fofoqueiras.

-Não conte a elas que eu te falei. A Cecília fez a gente guardar segredo.

-E você não guardou. –Eu fingi estar brava.

-Pelo menos eu contei para você. –Ele estava com um sorriso galanteador.

Estávamos conversando quando o meu celular começou a tocar, minha bolsa estava uma bagunça e demorei a achar o celular. Quando achei, atendi sem olhar quem era. Bernardo me encarava com a sobrancelha arqueada. Era a Alice no telefone. Eu precisava encontrá-la urgentemente. Quando desliguei o celular notei que ele ainda mantinha os olhos grudados no meu.

-O que foi? –Eu perguntei.

-Você gosta do Manitu também!

-Eu amo, por quê?

-Eu não conheço ninguém aqui na cidade que goste.

-Agora você conhece. –Eu sorri. –Eles são ótimos ao vivo.

-Mentira! Isa, por que você não me levou para Minas? –Ele estava “revoltado”.

-Que pena que eu não te conheci antes. –Eu ri. –Eu preciso ir. Tenho que encontrar a Alice, está chegando o dia da festa do Gael e ainda faltam muitos detalhes.

-Ele está nos Estados Unidos, né?

-Isso mesmo. Eu espero que você vá à festa.

-Isso é um convite? –Ele estava louco para sorrir.

-Um pré-convite. Bê. Eu estou terminando de fazer os convites, mas eu peço para a Cecília te entregar.

-Gostei!

-Gostou do que?

-Você me chamou de Bê, gostei disso.  –Eu corei imediatamente. –Vamos! –Fomos andando em direção ao estacionamento. Durante todo o percurso, Bernardo apoiou a sua mão nas minhas costas.

——–&——–

Alice estava toda estressada. Tinha medo de que as coxinhas não ficassem boas. Ela que era praticamente do meu tamanho tinha um cabelo longo que batia no quadril, também não vivia sem uma maquiagem. Apesar de ser linda, Alice era muito insegura quando o assunto era os seus desenhos. Amava fazer um drama, dizia que as imagens ficavam péssimas, mas na verdade eram verdadeiras obras de arte.

-Que demora, dona Isa. –Ela fez cara de brava, mas na verdade não estava.

-Desculpa, Alice, eu estava lanchando com um amigo.

-Que amigo? –Ela ficou bem interessada.

-O Bernardo. Ele estuda com a Cecília.

-Sei…

-Sabe o que? Não posso sair com o amigo?

-Pode não. Deve! –Nós começamos a rir.

Fizemos a massa da coxinha, e preparamos o recheio. Elas estavam indo para o forno quando Cecília e Marcela chegaram à casa da Alice. Vic não iria nos fazer companhia, nossa amiga queria desesperadamente acabar logo o desenho que tinha começado. Todas nós éramos bastante amigas. Sabíamos os segredos uma das outras (aqueles que podiam ser revelados) e sempre tomávamos as dores quando uma de nós estava sofrendo por amor.

Eu terminei de lavar as minhas mãos, que estavam bastante sujas de massa, quando cheguei à sala vi que as meninas não paravam de rir.

-Ei, quero rir também. –Eu falei, enquanto me sentava no sofá.

-A Cecília quer ir à festa de viúva negra. –Disse Marcela.

-E qual é o problema? –Perguntou Alice que também tinha sentado no sofá.

-Ai, Alicinha, a Cecília está apaixonada por um garoto e quer se fantasiar logo de viúva negra. Olha a falta de romantismo. –Marcela ria.

-Ei eu gosto da viúva negra. –Cecília jogou a almofada em Marcela. –Pelo menos eu já escolhi a minha fantasia e vocês?

-Eu acho que vou de princesa Merida. –Disse Marcela.

-Ai, Marcelinha, vai super combinar com o seu cabelo. –Eu falei.

-Eu pensei em ir de Rapunzel.

-Muito sugestivo, né, dona Alice. –Brincou Cecília. –E você, Isa?

-0 meu não é um filme, mas sim um livro.

-Que livro? –Quis saber Alice.

-Uê, o Azul da cor do mar, da Marina Carvalho. A Rafa do livro é super fashionista e estou me inspirando nela nessa nova fase da minha vida.

-Aê, Isa! –Marcela bateu palmas.

-Muito bem, amiga. –Falou Cecília.

-Essa menina está muito mudada. Primeiro sai para comer com um amigo. Depois só que saber de ser fashionista. –Alice falou com aquele jeitinho que todas nós amávamos.

-Que amigo, Isa? –Perguntou Cecília.

-O Bernardo. –Eu falei.

-O Bê? –Cecília parecia não acreditar.

-Sim, o Bê. –Eu resolvi contar para menina quem eu tinha encontrado no shopping. –Eu estava indo para a praça de alimentação quando do nada vejo sentado o filha da puta do Oscar junto com a jararaca da Bárbara. A minha vontade era ir embora, mas eu esbarrei no Bê e ele me fez companhia.

-Cara, esse Oscar é um idiota. –Esbravejou Marcela. –Eu não sei como você conseguiu namorar ele.

-Ai, Marcelinha, no fundo eu sempre soube que seria um risco me envolver com um escorpiano, mas eu era uma adolescente burra que acabou se apaixonando pelo garoto mais gato, que a propósito era amigo do meu irmão.

-Oi, como assim “escorpiano”? –Perguntou Alice. –Não vai dizer que você confia em horóscopo?

-Eu não sou a louca que olha sempre, mas meninas, as características de um escorpiano sempre bateu direitinho com o Oscar.

-Exemplos! –Pediu Marcela.

-Escorpiano é o cara envolvente que sabe como conquistar uma garota. É carinhoso, sabe envolver. E o Oscar era tudo isso. Afinal de contas ele me conquistou. Porém, ao mesmo tempo em que ele tem tantas características boas é melhor não mexer com um escorpiano. Eu e o Oscar brigávamos direto, mas aquele safado conseguia fazer com que eu me sentisse mal. Eu sempre pedia desculpas, mesmo quando ele estava errado. Só não fiz isso com a traição.

-Isa, você sabe todos os signos? –Perguntou Alice.

-Claro que não. –Eu falei. –Só dos garotos que eu estou gostando.

-Então qual é o do Bernardo? –A danada da Cecília perguntou.

-Ai, Cecília, como eu vou saber? Quem estuda com ele é você.

-Sei lá, pensei que você sabia. –Ela deu um sorrisinho.

-Mas não sei e nem me interessa. –Eu falei de forma seca. –Vamos focar na sua fantasia e na sua história com o Vinícius.

E assim passamos o início da noite, escutando Cecília falar sobre o garoto que finalmente estava conquistando o seu coração. Eu não podia negar. Era muito bom ter uma noite de meninas com as melhores amigas que alguém poderia ter.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

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