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ACABOU! HOUVE MUDANÇAS…

FOTO: reprodução
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Coloquei os últimos itens que faltavam na mala e olhei para o quarto que eu estava deixando para trás. Em cima da mesinha tinha aquela caixinha de joias, que continha uma bailarina. Foi você quem me deu, meu ex-amor. Lembra que você dizia que amava me ver dançar? Lembra que você dizia amar o meu jeito? O meu cabelo, que na época era imenso. Lembra que você dizia que iríamos ficar velhinhos e juntos para sempre? Pena que tudo não passou de mentiras.

Eu te amei me entreguei de corpo e alma. Acreditei que realmente iríamos ficar eternamente juntos. Te amei desde a primeira vez que te vi naquele ponto de ônibus. Seus olhos castanhos escuros, seus fones de ouvido que me deixavam morrendo de vontade de saber o que tanto você escutava. Ficamos juntos durante um bom tempo. Mas acho que você nunca acreditou que seria para sempre. Trocou-me por outra. Não a culpo. Espero que sejam felizes. Mas não me peça para te cumprimentar como se fôssemos velhos amigos. Acabou!

Olho para o foto da minha formatura e penso em você mamãe. Desculpa se a sua filha não quis trabalhar no escritório de seus amigos. Toda aquela sujeira e falso moralismo me dar ânsia de vômito. Não vou pegar os meus cinco anos de aprendizado e utilizar em algo que não acredito. Desculpa, mas não serei mais a sua marionete. Acabou!

E você papai? Sua vontade deve ser de me prender. Eu “destruí” a sua família. Já não basta não aceitar o meu curso da faculdade, uma advogada. Você sempre achou que isso era coisa apenas de menino. Agora eu destruí todo o resto dos seus sonhos. NÃO sou e NUNCA serei a moça bela, recatada e do lar. Não vou aceitar essa vida de submissão que toma conta da mamãe há tantos anos. Não sei como ela ainda aceita essa vida, mas eu não aceito. Acabou!

Fecho a minha mala. Conto meu dinheiro. Aquele mesmo que eu consegui trabalhando em festas infantis, supermercados, meu estágio. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele seria útil. Vou embora dessa vida vazia que tomou conta de mim durante vinte e dois anos da minha vida. Vou em busca de um lugar que esteja de acordo com a minha forma de pensar. Onde eu possa ajudar aos outros com a minha profissão. Onde eu possa dançar livremente sem que você apareça e pense que faço aquilo por sua causa. Pois não faço. Um lugar onde eu possa lutar e mostrar que machistas não passarão. Acho que já dei o primeiro passo com você, papai. Ainda dar tempo, mamãe. Um lugar onde eu possa ser eu, sem me importar com o fato de ser mulher. Tchau vida vazia. Acabou!

NÃO TIRO MAIS MEUS ÓCULOS: CONFISSÕES DE UM GAROTO

Eu nunca fui considerado o mais bonito entre os meus amigos, mas também não era o mais feio. Mas o que é feio e bonito? E o que isso pode fazer com o psicológico de uma pessoa?

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Lembro-me que desde pequeno eu sempre fui preocupado com o que as pessoas iriam dizer de mim, se elas me achavam bonito ou eu era um caso perdido. Mas lembro também que apesar das reações das amigas da minha mãe – ele é lindo!  – sempre serem as mesmas isso não mudava o que eu sentia. E sempre fui muito pessimista comigo mesmo. Eu simplesmente não gostava de nada em mim. E isso era muito difícil de admitir, principalmente quando se é um menino, e a sociedade diz que meninos não ligam pra essas coisas.

A partir dos meus onze anos de idade eu comecei a não retirar mais a camisa em público, apesar de que nessa idade eu ainda era magro e só uma criança que não tinha entrado na adolescência. Ainda nessa época eu conseguia ir à praia e ficar sem camisa, mas com bermuda. Dei adeus as sungas que minha mãe gostava de comprar. Com o avanço da idade – nossa, fiquei tão velho com essa frase hahaha –  a coisa piorou mais um pouco. As idas à praia se tornaram cada vez mais raras, e eu moro em MACEIÓ, quem mora aqui sabe como isso é difícil. Eu tinha vergonha de tirar a camisa em público, mas também tinha vergonha de entrar no mar com camisa. Por isso sempre evitei fazer algo que eu sempre amo muito que é tomar banho de mar. E me arrependo quando penso em quantos momentos eu deixei de viver por não me aceitar.

Chegaram as espinhas, meu corpo foi mudando e eu já não era aquele menino magrinho. Agora eu ganhei uns pesos a mais. E as coisas só pioraram. Vi a minha pele se tornar uma terceira guerra mundial onde as acnes brigavam por território contra os cravos – que nojo escrever isso – e minha visão começou a falhar. Agora eu estava acima do peso, com o rosto repleto de acnes e usava óculos de grau. Eu sabia que tinha que fazer alguma coisa para melhorar, mas não conseguia. Simplesmente eu tinha desistido de mim. Vivia em uma escuridão total. E acho que nesse momento do texto alguns dos meus amigos já não me reconhecem, pois apesar da baixa autoestima, eu ainda conseguia me divertir e/ou não queria compartilhar esse sentimento com ninguém.

Cresci mais um pouco, e quando eu achei que não poderia acontecer mais nada, simplesmente eu comecei a não aguentar a me ver em fotos usando óculos. Eu coloquei uma ideia louca na cabeça de que eu ficava mais  bonito – pra não dizer legalzinho – sem óculos nas fotos. A galera se reunia pra foto e eu já gritava: pera, deixa eu tirar o óculos que eu fico mais bonitos. E apesar dos meus amigos rirem da situação, eu preferia passar vergonha fazendo essa idiotice do que ter uma foto usando óculos. BIZARRO!

É triste escrever isso e fico ainda mais triste em saber que por ai tem muitos outros meninos e meninas que também passam por tudo isso que eu sofri e ainda sofro, e às vezes de uma forma bem pior. E sim, ainda não me livrei de algumas dessas loucuras. Não é tão fácil dizer pra si mesmo que tudo isso não passa de uma loucura da sua cabeça, que você não vai ser julgado pelo que você é, quando você é julgado diariamente. Talvez eu sofra do mal do século: procurar padrões que não existem. E que não devem existir. Mas é uma coisa que dizem que você tem que alcançar, apesar deu nunca ter visto alguém que o tenha tocado.

Agora eu já não retiro mais os meus óculos para tirar minhas fotos e me sinto muito bem por isso. Agora eu começo a entender que somos singulares e devemos nos aceitar. Eu percebo que realmente não existe feio e bonito, esses conceitos são só loucuras da nossa cabeça. Eu comicamente aprendi que pra cada sapato que as pessoas julgam velho, existe um pé cansado esperando por ele.

Se você chegou até aqui, muito obrigado! Eu realmente precisar falar com alguém.