NÃO TIRO MAIS MEUS ÓCULOS: CONFISSÕES DE UM GAROTO

Eu nunca fui considerado o mais bonito entre os meus amigos, mas também não era o mais feio. Mas o que é feio e bonito? E o que isso pode fazer com o psicológico de uma pessoa?

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Lembro-me que desde pequeno eu sempre fui preocupado com o que as pessoas iriam dizer de mim, se elas me achavam bonito ou eu era um caso perdido. Mas lembro também que apesar das reações das amigas da minha mãe – ele é lindo!  – sempre serem as mesmas isso não mudava o que eu sentia. E sempre fui muito pessimista comigo mesmo. Eu simplesmente não gostava de nada em mim. E isso era muito difícil de admitir, principalmente quando se é um menino, e a sociedade diz que meninos não ligam pra essas coisas.

A partir dos meus onze anos de idade eu comecei a não retirar mais a camisa em público, apesar de que nessa idade eu ainda era magro e só uma criança que não tinha entrado na adolescência. Ainda nessa época eu conseguia ir à praia e ficar sem camisa, mas com bermuda. Dei adeus as sungas que minha mãe gostava de comprar. Com o avanço da idade – nossa, fiquei tão velho com essa frase hahaha –  a coisa piorou mais um pouco. As idas à praia se tornaram cada vez mais raras, e eu moro em MACEIÓ, quem mora aqui sabe como isso é difícil. Eu tinha vergonha de tirar a camisa em público, mas também tinha vergonha de entrar no mar com camisa. Por isso sempre evitei fazer algo que eu sempre amo muito que é tomar banho de mar. E me arrependo quando penso em quantos momentos eu deixei de viver por não me aceitar.

Chegaram as espinhas, meu corpo foi mudando e eu já não era aquele menino magrinho. Agora eu ganhei uns pesos a mais. E as coisas só pioraram. Vi a minha pele se tornar uma terceira guerra mundial onde as acnes brigavam por território contra os cravos – que nojo escrever isso – e minha visão começou a falhar. Agora eu estava acima do peso, com o rosto repleto de acnes e usava óculos de grau. Eu sabia que tinha que fazer alguma coisa para melhorar, mas não conseguia. Simplesmente eu tinha desistido de mim. Vivia em uma escuridão total. E acho que nesse momento do texto alguns dos meus amigos já não me reconhecem, pois apesar da baixa autoestima, eu ainda conseguia me divertir e/ou não queria compartilhar esse sentimento com ninguém.

Cresci mais um pouco, e quando eu achei que não poderia acontecer mais nada, simplesmente eu comecei a não aguentar a me ver em fotos usando óculos. Eu coloquei uma ideia louca na cabeça de que eu ficava mais  bonito – pra não dizer legalzinho – sem óculos nas fotos. A galera se reunia pra foto e eu já gritava: pera, deixa eu tirar o óculos que eu fico mais bonitos. E apesar dos meus amigos rirem da situação, eu preferia passar vergonha fazendo essa idiotice do que ter uma foto usando óculos. BIZARRO!

É triste escrever isso e fico ainda mais triste em saber que por ai tem muitos outros meninos e meninas que também passam por tudo isso que eu sofri e ainda sofro, e às vezes de uma forma bem pior. E sim, ainda não me livrei de algumas dessas loucuras. Não é tão fácil dizer pra si mesmo que tudo isso não passa de uma loucura da sua cabeça, que você não vai ser julgado pelo que você é, quando você é julgado diariamente. Talvez eu sofra do mal do século: procurar padrões que não existem. E que não devem existir. Mas é uma coisa que dizem que você tem que alcançar, apesar deu nunca ter visto alguém que o tenha tocado.

Agora eu já não retiro mais os meus óculos para tirar minhas fotos e me sinto muito bem por isso. Agora eu começo a entender que somos singulares e devemos nos aceitar. Eu percebo que realmente não existe feio e bonito, esses conceitos são só loucuras da nossa cabeça. Eu comicamente aprendi que pra cada sapato que as pessoas julgam velho, existe um pé cansado esperando por ele.

Se você chegou até aqui, muito obrigado! Eu realmente precisar falar com alguém.

Alef Jordi

Alef Jordi

Estudante de Letras, criador do blog Qualquer Coisa Vira-lata, Potterhead assumido e um sonhador sem limites. Sonha em publicar um livro antes dos 30. E ama promover ações sociais.

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