ELA ENCANTA – CAPÍTULO 1

-Ai!!! –Gritou pela enésima vez a doida da Luísa, minha prima que jurava que a dor que eu sentia estava doendo nela também. –Sofia, eu me acho maluca, mas você é mais. Essa é a quarta sessão de tatuagem que eu venho com você. Porra, eu já sinto a dor em mim.

-Assim você me ajuda muito, Luísa. –Eu reclamei, enquanto sentia aquelas micro agulhas perfurando as minhas costas. –Diego será se acabamos hoje essa tatuagem?

-Não se preocupa Sofia, eu já estou finalizando. A Luísa que é escandalosa. Mas você está sentindo muita dor? Qualquer coisa avisa que eu vou mais devagar.

-Eu consigo suportar. –Eu falei.

Depois de quase duas horas a minha tatuagem ficou pronta. Foram quatro sessões de quase duas horas cada para poder tatuar um filtrador de sonhos nas costas, igualzinho ao que o meu pai me deu quando eu era pequena. Mas que a Ângela fez questão de quebrar. Pronto! Agora eu teria um que só seria possível ela tirar de mim caso arrancasse o meu couro.

-Ficou foda! –Diego disse.

Eu me levantei fui até o jogo de espelhos que tinha no estúdio e pude admirar aquela linda tatuagem. Ela era composta por um galho, que continha algumas miçangas, o galho sustentava uma mandala e algumas penas. A mandala sustentava outra mandala que sustentava outras penas. Acho que a tatuagem tinha quase vinte e cinco centímetros de altura. Ela era toda preta e o traço que o Diego usou era bastante delicado.

-Prima ficou linda essa tatuagem! –Luísa analisava cada pedacinho dos desenhos.

– Diego eu amei! –Eu falei feliz da vida.

Antes de irmos embora Diego falou mais uma vez todos os cuidados que eu precisava ter para não infeccionar a pele. Era óbvio que eu cumpriria tudo. Agora eu poderia riscar de vez o item tatuagem da minha lista.

———-&———

Faltava apenas um item para eu concluir com êxito as minhas metas. Durante as férias de janeiro eu fiz a tatuagem, fiz ombre na cor azul no meu cabelo, saltei de tirolesa e fui a um festival de música eletrônica, tudo isso é claro na companhia da Luísa, que além de minha prima era a minha melhor amiga. Agora tinha chegado a hora de ir a uma balada.

-Sério, Sofia me diz onde você se escondeu esse tempo todo. –Luísa começou com o falatório. –Durante vinte anos em que convivemos juntas você não desgrudava do seu quarto. Ou estava estudando, ou lia, não posso esquecer é claro se você não fazia nem uma das coisas que eu citei estava assistindo filmes, quase certeza que na maioria das vezes seria O fabuloso destino de Amelie Poulan. Mas agora você quer ir para uma balada. Logo quando eu estou prestes a ir morar em Nova York.

-Prima se você não quiser ir okay. Eu posso procurar outra pessoa para me fazer companhia. –Eu fiz chantagem.

-Está louca? –Ela falou. –Essa noite eu vou ver você dançar bastante e beijar muito na boca.

-Sei. –Eu falei enquanto me maquiava.

Minha maquiagem por sinal era o clássico que eu fazia. Lápis preto esfumado nos olhos e boca vermelha.  Luísa dizia que eu não precisava muito para ficar bonita, segundo ela eu tinha traços marcantes, meus olhos castanhos escuro eram grandes, minha sobrancelha era arqueada, meu nariz era afilado e minha boca carnuda me fazia ser uma mulher que não precisava perder horas e horas em frente ao espelho se maquiando. Como a minha prima era ingênua! Era só eu ficar alguns dias sem dormir direito que eu parecia um urso panda.

-Prima, você deveria ter descoberto que gosta de farra antes. Agora que eu vou para Nova York não vou poder te mostrar os encantos dessa cidade. –Ela falava enquanto se maquiava. Minha prima era o oposto de mim, enquanto eu era morena, não posso esquecer que agora parte do meu cabelo estava azul. Minha prima era loira, ela tinha olhos azuis. Ela tinha uma beleza que enganava muito bem, tinha um rostinho meigo, mas não brincava em serviço. Praticava Box há quatro anos, e agora moraria um tempo em Nova York onde faria um curso de teatro.

-Mesmo se eu quisesse farrar a partir de agora e mesmo que você estivesse aqui não poderíamos ir juntas. Esqueceu que eu vou me mudar.

-Só você mesmo para trocar a cidade grande pelo interior, mas sei que você vai abalar independente do lugar.

-Sei…

Luísa parecia uma louca quando me viu sair do banheiro. Ela me olhou da cabeça aos pés umas quinhentas vezes e começou a gritar.

-Sofia você quer matar os homens da boate? Porra! Você está muito gostosa! Sério se eu fosse bi ficaria com você. Mas você sabe que eu não sou. –Aquela dali amava os homens, acho que em cinco anos teve oito namorados, ou mais. –Já estou vendo o alvoroço que você vai causar. Sério você só me surpreende.

Toda aquela agitação da Luísa era pelo fato de eu estar usando um vestido preto estilo princesa, ele era acenturado, mas tinha uma linda saia rodada que ia até a metade da coxa. O problema era que não se tratava de um simples vestido. Ele era de couro e suas costas eram completamente nuas. Para compor o visual eu coloquei uma meia calça preta, bordada, e uma bota de cano curto e salto grosso alto que também era preto.

-Lu, é só uma roupa para de inventar. –Eu falei.

-Parar de inventar? Sofia eu já disse que você está gostosa. Tenho certeza que todos os homens da boate, e mulheres também, vão querer ficar com você. –Quem escutava aquele discurso da dona Luísa pensava que ela não estava bem arrumada. Minha prima usava um vestido curto vermelho frente única. Tenho certeza que ela não ficaria sem beijar alguns nessa balada.

-Ei solta esse cabelo. Apesar de gostar da ideia de mostrar essa tatuagem. Gosto do efeito que esse seu cabelão liso causa. –Ela tirou o laço do meu cabelo.

-Eu já ia fazer isso. –Tentei protestar.

Minha tia dona Melina, mas que eu chamava carinhosamente de madrinha entrou no quarto.

-Que barulheira é essa? –Não podíamos negar fazíamos muito barulho. –Meu Pai como vocês estão lindas! Mais lindas é claro. Eu posso saber para onde vocês vão?

-Vamos para uma boate. –Eu falei.

-A Sofia vai beijar muito na boca hoje. –Sério alguém precisava dar limites para a minha prima.

-Que conversa é essa?

-Madrinha você ainda escuta a Luísa? –Eu falei enquanto me virei para pegar a minha bolsa.

-Que estampa é essa no seu vestido, Ana Sofia? –Minha madrinha só me chamava assim quando estava desconfiada de algo que eu aprontei.

-Não é estampa. É uma tatuagem. –Eu tomei coragem e falei.

-Meu Pai Celestial! Eu não acredito que você fez uma loucura dessas. –Ela falou enquanto se aproximou do desenho. Quando ia protestar reparou bem na figura. –É idêntico ao filtro de sonhos que o Rafael te deu.

-Agora a Ângela não vai mais destruir. –Eu disse.

-E você minha filha também marcou a pele?

-É claro que sim. Mas ao contrário da Sofia eu fiz um micro coração. –Luísa contou. –Mas fiz questão de acompanhar a minha prima em todas as sessões o tatuador é muito gato.

-Luísa bem menos, por favor. –Dona Melina disse. –Acho que vou rezar o rosário para pedir muita proteção para vocês.

-Não precisa mãe. –Luísa falou. –Vamos Sofia, como diz a canção da Cyndi Lauper “Girls Just want to have fun”.

Saímos de casa em busca de muita diversão. Pelo menos para aquela noite.

 

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.