A TAL FESTA DO DIA DOS NAMORADOS

Fonte: Reprodução Google

– Não, não e não! Eu já falei, Thalita! Esse ano eu não vou para a festa no Trindade. – Disse o mesmo discurso que eu vinha repetindo nos últimos quinze minutos.

– Qual é Manu, essa festa é tradição! A gente sempre vai para essa comemoração de São João. – Thalita, era dura na queda e provavelmente passaria a noite inteira me chamando para sair.

-Corrigindo, festa de Santo Antônio, o Santo casamenteiro que ocorrerá no dia dos namorados, quer mais algum argumento? – Não me importei se minha amiga continuava fazendo drama, peguei meu box de Friends e estava prestes a colocar, Rachel, Mônica e companhia seriam meus amigos naquela noite.

-Manuela, a gente sempre saiu para comemorar essa festa no Trindade, porque esse ano seria diferente, me diz?

-Comemorávamos porque ambas estavam solteiras! Agora você tem o Max. – Ela me olhou com cara de espanto. – Você vai comemorar com o seu namorado! E eu vou ficar aqui curtindo a minha sexta feira comendo chocolate e assistindo série.

Queria que aquilo fosse o suficiente para a Thalita entender o meu ponto de vista, mas se tinha uma coisa que minha amiga sabia fazer muito bem era drama. Não é a toa que ela cursava cinema.

-Manuela, nesses últimos meses a gente mal se viu. Eu fiz meu curso fora, você dedica seu tempo a ensinar aqueles aborrecentes e fazer o teu mestrado. Não lembro qual foi a última vez que sai com a minha amiga. – O drama não tinha acabado. – Eu peço para o Max não ir a festa, quem se importa se também é dia dos namorados, uma data criada pelo sistema, só para arrancar nossos dinheiros com presentes caros. – O drama ainda continuava. – Eu só queria que a gente saísse como nos velhos tempos. Todos os nossos amigos vão e nem todos estão namorando. Fora isso as melhores comidas são feitas pela dona Lurdes e a gente sempre come tudo que ela faz… Ela conta com a nossa presença…

-Ok Thalita, você venceu! Eu vou com você, não precisa fazer mais drama. Vamos aproveitar a festa no Trindade. – A cara de choro foi substituída por um sorriso de quem tinha alcançado o alvo. – Pode tirar essa carinha de felicidade, garota. Vou com vocês, mas não significa que ficarei a noite toda.

-Você quem manda, Manuzinha. – Ela disse antes de me abraçar.

Tentei, juro que tentei não ser pessimista, mas eu sabia que aquela noite não seria legal. Primeiro tive que aguentar o casal mais romântico dos últimos tempos. Nada contra o romantismo, achava fofo e tudo mais. Entretanto escutar o Max e a Thalita se tratando com vozes infantis era demais para mim. Minha decepção aumentou quando encontramos nossos amigos na festa, todos, eu disse todos estavam namorando. Eu não seria vela daqueles casais.

-Manu, todos vão se comportar, não se preocupa, amiga. – No fundo ela mesma sabia que aquilo não era verdade, afinal de contas era dia dos namorados, os vários pombinhos iriam querem dançar juntinhos, enquanto trocassem vários beijos.

-Que seja, eu vou comprar comida.

Caminhei até a barraca da tia Lurdes, a antiga dona da lanchonete da nossa escola. Ela fazia as melhores comidas típicas, pelo menos posso falar que o bolo de milho, o milho assado, cozido eram os melhores que eu conhecia.

-Manuzinha, quanto tempo! – Ela falou ao me ver, seu sorriso me fez esquecer a raiva que já nascia por eu estar aqui.

-Oi, tia Lurdes! Saudades da senhora e dos seus doces, o que de mais gostoso temos aqui? – Meus olhos encaravam aquelas lindezas, o bolo de milho com calda de goiabada  estava com um cheiro maravilhoso. Era como se eu tivesse voltado no tempo, quando esse mesmo tipo de bolo era uma das comidas que eu comia na festa de Santo Antônio.

-Esse bolo de milho com goiabada está divino, aproveita que esse é um dos últimos pedaços.

-É ele mesmo que eu quero. – Falei louca para comer.

Peguei meu pedaço de bolo e fui em direção a região oposta dos meus amigos, queria aproveitar a comida e ver a festa que sim eu amava. Mês de junho era um dos meus favoritos, dançar quadrilha, soltar bombinha, comer muitos milhos, era sem dúvidas uma das coisas que eu mais gostava. Era uma pena que eu estivesse tão afastada de todas as coisas que eu curtia, ser professora e mestranda não era uma tarefa muito fácil. Eu estava percebendo isso, ultimamente.

Queria esquecer durante aquela noite toda a minha vida de gente adulta, queria recordar daquela criança e adolescente que sempre amou comemorar todas essas datas juninas. Deixei de pensar tanto e resolvi atacar o meu bolo, mas quando eu ia dar uma boa mordida, recebi uma mensagem da Thalita.

“Manu, cadê você? Não tá chateada comigo né? “

Eu ia responder, digitava as primeiras palavras quando um grupo de crianças passou por mim. Segurei meu bolo e meu celular, aqueles monstrinhos pareciam um furacão. Voltei a digitar quando duas coisas aconteceram. Thalita me mandou outra mensagem, não uma, mas sim várias! Meu celular não parava de vibrar, ao mesmo tempo que eu tentava segurar o bolo e digitar, enquanto descia uma rampa, não percebi que alguém vinha em minha direção. Senti quando meu corpo se chocou com um corpo maior do que o meu. Senti quando o meu bolo encostou na minha roupa e em seguida caiu no chão. Levantei a cabeça e vi aqueles olhos castanhos que eu nunca esqueceria. Os mesmos olhos que me encararam meses atrás logo depois do dono do mesmo ter derrubado açaí na minha blusa branca, no primeiro dia de aula.

-Puta merda! De novo não! – Pelo visto ele me reconheceu.

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Eu era o cara mais azarado do planeta! Puta que pariu como eu poderia sujar a mesma garota duas vezes? Era o mesmo que um raio cair duas vezes  no mesmo lugar. E eu tinha conseguido esse feito. Eu não tive culpa, de novo! A menina surgiu na minha frente. Pelo menos dessa vez ela estava com duas blusas e a prejudicada da história era uma xadrez, não aparentava ser tão cara como a branca, que por sinal eu nunca encontrei outra igual, mas sabia que o valor era alto para um pedaço de pano.

– Foi mal, eu não queria te sujar, mas dessa vez acho que a mancha sai com facilidade, afinal de contas não é açai. -Estava nervoso tentando resolver o problema.

-Meu bolo, você derrubou o meu bolo! – Sério que ela estava preocupada com a comida.

-Ei, não se preocupa eu te pago outro pedaço de bolo. – Pelo menos dessa vez seria mais fácil resolver o problema. – Vem comigo.

Antes de irmos em direção a barraca, ela se abaixou e pegou o bolo que estava no chão, foi até uma lixeira próxima e o jogou. Eu queria resolver logo esse problema, porque pelo visto eu só atraia confusão quando estava perto dessa garota.

A fila estava grande, pelo visto os doces dali eram bons. Eu não costumava frequentar festas juninas, só apareci porque fui intimado, tinha que cuidar da minha irmã e minha prima. Quando chegou nossa vez, peguei a carteira para pagar, enquanto a garota fazia o pedido.

-Oi de novo, tia Lurdes, a senhora ainda tem o bolo de milho com calda de goiabada? – Ela falava enquanto olhava para os doces da bancada.

– Minha menina, o bolo acabou agorinha, mas ainda tem canjica, pamonha.

-Nossa, tia Lurdes, eu só queria o bolo mesmo. – Ela aparentava estar triste. – Fico feliz por saber que a senhora já vendeu tudo. – As duas se despediram, eu guardei a carteira e fui atrás da garota.

-Ei, espera! – Ela parou e ficou me encarando. – Para onde você vai?

-Embora! Essa festa já deu para mim! – Ela voltou a caminhar com passos apressados.

-Espera! – Mais uma vez ela me encarou. – Eu sinto muito que você não conseguiu o seu bolo. Não foi a minha intenção derrubar.

-Você não entende. – Ela aparentava estar cansada. – Esse bolo era a única lembrança que permanecia igual aos outros anos. Ele me fez relembrar da época em que eu aproveitava essa festa ao lado dos meus amigos, sem me preocupar com nada. – Ela fez uma pausa, mas logo voltou a falar. – Esse bolo me lembra de quando eu ainda fazia parte de uma turma. Não digo isso pelo fato dos meus amigos estarem namorando. Mas eu nem sabia que todos estavam. Eu perdi o contato com a grande maioria ao longo dos meses, é como se eu não me encaixasse mais.

Eu sabia que ela estava enganada, não que eu conhecesse seus amigos, mas era nítido que ela não tinha sido excluída do grupo. Querendo ou não, eu tinha sido o responsável por tudo aquilo. Mais uma vez. Resolvi me desculpar de alguma forma.

-Olha, eu sei que você está triste, e querendo ou não eu fui o culpado por isso. – Ela ia falar, mas eu não deixei. – O que você acha de eu te pagar um churrasco? Eu não sou muito fã de comida com milho e o cheiro da carne está me deixando louco. – Era pura verdade. – E aí aceita?

-Aceito! – Ela disse me dando uma chance de consertar aquele momento.

Sentamos em um banco e começamos a devorar o churrasco que de fato estava ótimo! Resolvi quebrar o silêncio que nos dominava.

-Desculpa mais uma vez pela sua blusa branca. – Ela me encarou. – Eu sei que aquela blusa era cara. Fiquei chateado por não ter conseguido te comprar uma nova.

-Pensei que você estivesse chateado pelo fato de eu ter ficado com a sua. – Ela sorriu. – Se bem que usar uma blusa com estampa do Nirvana foi muito bom, digamos que os alunos gostaram de saber que a professora era roqueira. – Pelo visto ela se lembrou de alguma cena que a deixou feliz. – No fim das contas obrigada, mesmo sem querer, você me ajudou com alguns alunos.

-Por essa eu não esperava. – Falei surpreso. – Espero que a carne tenha sido uma troca justa pelo bolo que eu derrubei.

-Olha, o bolo era muito especial para mim… Mas confesso que essa carne está ótima! –Ela sorriu. – Muito obrigada!

O nosso churrasco chegava ao fim e eu não queria me despedir daquela garota, mesmo sem conversarmos muito eu gostava da sua companhia. Percebi que ela não parava de se balançar ao som da canção de forró que tocava. Aquele não era o meu estilo, mas ela não precisava saber.

-Dança comigo? Percebi que você está gostando da canção. – Ela me encarou, seus olhos castanhos escuros não parecia acreditar que eu sabia dançar.

-Certeza que você não vai pisar no meu pé? – Ela perguntou desconfiada.

-É claro que eu não vou pisar! Eu adoro forró e sei dançar. – Esperava que ela acreditasse e que os famosos dois para lá dois para cá fossem meus amigos naquele momento.

-Tudo bem, eu aceito! – Ela se levantou e me estendeu a mão. – Mas acho melhor você tentar seguir meus passos. Nós já percebemos que somos dois desastrados. – Ela sorriu.

-Você quem manda! – Disse ao segurar a sua mão e seguir em direção a pista da dança.

 

 

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

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