AQUELE SORRISO BOBO QUE ME CONQUISTOU – PARTE II

-Mano, é tradição! A gente precisa comemorar o teu aniversário.
Estava escutando aquela frase o tempo inteiro no último dia. Faltava uma semana para o meu aniversário de 23 anos. E durante os últimos dois anos comemorei a data com os meus amigos. Sempre íamos à boate da cidade universitária que morávamos. Mas esse ano eu não queria ir. Passava a manhã inteira no estágio, a tarde tinha a faculdade e a noite precisava dividir o meu tempo entre estudar os assuntos do meu curso, que, definitivamente, não era fácil, já que eu cursava engenharia aeronáutica e dava aulas de reforço. Eu sabia que não estava sendo fácil para os meus pais mandarem dinheiro para eu me manter aqui. Estava economizando onde eu podia.
-Eu sei que é tradição, mas esse ano não rola. Preciso economizar. Além do mais to cansadão, brother. – O que não deixava de ser verdade. – Esse ano quero um programa mais leve, em que eu aproveite. Deixei essa vida de farra de lado.
Meus amigos continuavam contestando a minha decisão, mas quem disse que eu escutava? De longe avistei a menina mais linda e mais atrapalhada que eu conhecia. A menina que tinha aquela velha mania de olhar a mochila e conferir se tudo estava dentro dela. Aquela menina que ficava encabulada toda vez que eu a provocava. Não sei como eu consegui passar tanto tempo sem falar com ela.
-Ei, Mané, estamos falando com você.
-Vitão, percebeu não que a mina dele chegou?
Quando os olhos dela encontraram os meus, abri um imenso sorriso, que foi retribuído. Meus amigos se afastaram e ela veio ao meu encontro.
-Oi! – Ela disse meio sem jeito. Provavelmente não sabia como me cumprimentar. Eu, que não sou bobo nem nada, fui logo lhe dando um abraço bem forte.
-Oi, menina bonita! – Não era ligado em marca de perfume, mas o daquela menina me interessava bastante. Para falar a verdade, qualquer coisa que ela colocasse ficaria bom, o cheiro vinha de fato dela.
-Não está muito cedo para você já estar na faculdade? – Perguntei enquanto conferia no relógio que ainda era meio dia e vinte.
-Sabe como é, medo de perder o ônibus e chegar atrasada. – Eu sabia que ela odiava chegar tarde, quando eu vinha mais cedo estudar com o pessoal, ela sempre pegava o mesmo ônibus que eu.
-Vai fazer alguma coisa agora? Tem alguém te esperando? –Tive uma ideia e estava rezando para que ela desse certo.
-Não, por quê? –Ela perguntou curiosa.
-Queria companhia enquanto eu almoço. –Tinha chegado do estágio e estava morrendo de fome. – Topa me fazer companhia?
-Claro! – Ela respondeu e me presenteou com aquele sorriso lindo.
Fomos até a lanchonete que ficava próxima do bloco de exatas, por conta do horário o local estava um pouco mais movimentado. Apesar da lotação consegui uma mesa em que pudéssemos nos acomodar. Quando eu morava com os meus pais trocava facilmente um prato de comida por porcaria, como a minha mãe costuma chamar os lanches. Mas desde que eu comecei a morar sozinho e passei a estagiar, apreciava com muito carinho um bom prato de comida.
-Almoça comigo? – A convidei.
-Comi antes de sair de casa. – Ela disse.
-Toma pelo menos um suco, fico constrangido em ser o único que está comendo. – Ela soltou uma gargalhada.
-Tudo bem!
Enquanto ela bebia o seu suco de acerola, eu almoçava. Falávamos sobre futebol, nossas bandas favoritas. Era incrível o quanto éramos parecidos, e ao mesmo tempo tão diferentes. A cada segundo eu tinha certeza de que queria desvendar aquela garota.
-Como anda a sua agenda?
-Como assim, a minha agenda? – Ela não tinha entendido a minha pergunta.
-Muito estudo ou sobra um tempinho para fazer companhia para um garoto solitário?
Ela ficou me encarando, provavelmente me daria uma desculpa. Aquela menina era diferente de todas as outras que eu havia conhecido. Ela era na dela, não sabia qual era o motivo que me atraia tanto. Claro que ela era linda! Mas beleza era algo relativo. Pelo visto meus planos de tê-la por perto iriam por água abaixo.
-Depende de quando seria. – Nem tudo estava perdido.
-Vamos ao jogo comigo na próxima semana. Topa? – Pelo seu olhar percebi que ela recusaria. – O jogo será tranqüilo. Prometo que não vou te meter em nenhuma roubada.
-Está bem! – Sério que ela tinha aceitado. – Agora se o time perder nem vem me culpar. –Ela foi logo deixando claro.
-Não se preocupa, menina bonita. O que importa é a tua companhia. –Se ela soubesse que o jogo era o de menos, o meu interesse era que ela estivesse ao meu lado no meu aniversário.
-Eu tenho que ir. – Ela pegou o celular e tinha visto que era quase uma e meia. –Boa aula, moleque.
-Boa aula, menina bonita. – Falei. – Não vejo a hora de o jogo chegar.
Ela sorriu envergonhada e saiu. Enquanto eu fiquei feito bobo admirando aquela menina que não saia da minha cabeça.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

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