EU VOU ATÉ O FIM!

Eu sempre soube o que eu queria ser quando crescer. Sempre brinquei de desenhar plantas para as minhas bonecas. Imaginava como seriam as suas casas. Sempre amei tudo que era relacionado ao mundo da arquitetura. Ou melhor… Quase sempre. Eu não estava aguentando toda aquela pressão que vinha tomado conta de mim. Precisava entregar um projeto de um restaurante. O problema era que o professor não aceitava NENHUM dos meus projetos. NUNCA estava bom o suficiente!

O outro problema que aterrorizava a minha vida acadêmica era que eu não sabia qual curso escolher, caso abandonasse a arquitetura. Eu sempre quis ser arquiteta e não me via fazendo nada diferente. Mas quando essa crise de que eu não era boa em nada que eu faço me pegava, eu não sabia o que fazer. Aliás, saber eu sabia. Queria fugir!

Fui com duas amigas encher minha garrafa de água. Estava com a Luísa e com a Nathália. Elas também estavam putas da vida com toda a situação que nos encontrávamos. Para completar, tínhamos que ir até o bloco das engenharias. A água de lá era melhor do que a nossa.

No meio do caminho escutei uma risada que era capaz de me fazer esquecer qualquer problema do mundo. O dono dessa risada possuía olhos de cor verdes intensos. Esses olhos logo encontraram os meus e não quiseram mais largar. Bernardo, o meu menino lindo, estava sentado com uns amigos. As meninas logo me deram tchau, e eu fui falar com o Bê.

-Menina linda! –Ele falou antes de me dar um beijo doce, mas que sempre me deixava com a vontade de querer mais. Era a minha droga. –Está perdida? –Ele perguntou.

-Não. –Eu olhei para os seus amigos que estavam sentados com o Bê. –Oi, galera.

-Oi, Isa! –Eles me cumprimentaram.

-Eu vou indo. Não quero atrapalhar vocês.

-A gente já está acabando. –Bernardo falou.

Eu me sentei ao seu lado. Bê passou seu braço esquerdo pelas minhas costas, juntando o meu corpo ao seu. Ele e seus amigos conversavam sobre derivadas e integrais. Para mim, aquela língua era grega. E o fato deles rirem em meio ao assunto me fez ficar imersa nos meus problemas. Ou melhor, no meu projeto do restaurante que só escutava a palavra NÃO do professor.

Não sei ao certo quantos minutos se passaram, quando dei por mim os amigos de Bernardo se levantaram e se despediram da gente. Bernardo aproveitou que só estávamos nós dois se levantou e se sentou no banco, encostando suas costas no pilar. Depois ele me chamou, e eu sentei entre suas pernas encostando as minhas costas em seu tórax.

-Posso saber o que se passa nessa cabecinha linda? –Ele falou antes de beijar meu pescoço.

-Eu estou me sentindo uma inútil, Bê. Eu já entreguei o meu projeto do restaurante quatro vezes e só escuto não. –Eu suspirei abaixando os meus ombros em sinal de rendimento. –Será que a arquitetura é mesmo para mim?

-Você ama o que você estuda? –Bernardo me perguntou.

-Amar, eu amo. Mas sinceramente não sei se as matérias me amam. Eu me sinto tão mal, Bê. Porra! Eu sempre gostei de tudo isso. Mas vêm as notas, os nãos e me mostram que eu não estou no caminho certo. –As lágrimas corriam livremente pelo meu rosto.

-Ei! É assim em todos os cursos. –Ele enxugou as minhas lágrimas, Bernardo estava preocupado. –Não chora! Menina linda.

-Não é assim em todos os cursos. Você mesmo estava rindo com os seus amigos, enquanto dividiam o trabalho.

-Isa, a gente está fodido nessa matéria. Mas a gente preferiu rir da situação. –Ele continuou. –Você acha que só é difícil para você, princesa? Todos nós temos que enfrentar os leões, exorcizar os demônios que insistem em aparecer nos nossos cursos.

Ele apontou para um menino que estava sentado do outro lado do pátio, ele escutava música e parecia não estar ligando para a opinião de ninguém. –Aquele cara deve estar puto da vida com alguma matéria. Pode ter tirado uma nota baixa, ou algo do tipo. – Depois ele apontou para um casal que estava dando uns amasso. –Não tem aqueles dois, que estão fazendo exatamente aquilo que faremos daqui a pouco, aposto que em algum momento da vida eles acordaram pensando: será que é isso mesmo que eu quero para minha vida? Eu não aguento mais esse inferno. – Ele imitou como o casal que se referia faria.

Depois Bernardo se afastou de mim e olhou no fundo dos meus olhos. – Não tem esse cara aqui que está na sua frente? Todos dizem que ele tem um computador na cabeça, que ele é foda! Mas só ele sabe o quanto é difícil esse curso. E o quanto é complicado lidar com as expectativas dos pais, dos amigos e da namorada. O quanto é difícil manter as notas boas. Mas esse cara aqui sempre erra, mas ele sabe que isso faz parte da vida e que ele não vai desistir agora.

As minhas lágrimas estavam voltando a cair.

-E sabe a namorada desse cara, ela é muito inteligente. Mas as vezes ela se sente insegura. Acredita que está no caminho errado. Mas não, ela é uma menina incrível que agora está chorando por causa de um NÃO em um assessoramento. Mas eu tenho certeza que ela vai fazer um puta de um projeto para esse restaurante. Que o professor dela vai ficar pensando: como eu não tive essa ideia antes. Mas caso não seja o projeto dos sonhos dele, será dos dela. E eu tenho certeza de que independente do que aconteça, eu tenho o maior orgulho dela. E não será uma nota que diminuirá a minha admiração pela minha menina linda.

Quando Bê terminou de falar, eu continuava em meio às lágrimas, mas consegui sussurrar um “obrigada”. Obrigada não só pelas palavras, mas pelo apoio, e por ele me fazer eu me sentir sempre especial. Bernardo enxugou as minhas lagrimas, e eu finalmente pude lhe dar um beijo. Aquele beijo era a minha forma de lhe agradecer por tudo.

Como Bernardo falou, todos nós sempre passaríamos por dificuldades, mas eu tinha que acreditar em mim, no meu potencial. Eu não poderia desistir toda vez que eu escutasse um não. Eu iria até o fim nessa brincadeira de gente grande.

 

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

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