AQUELES NOVENTA DIAS…

Acordei com o barulho do despertador, eram seis horas da manhã. Desliguei o aparelho e me virei na cama. Você continuava dormindo, aquele sono pesado que eu tinha descoberto nos últimos noventa dias. Sua respiração tranquila refletia quem você era. Parece que foi ontem que entrei naquele bar, completamente diferente dos que eu estava acostumada. A tristeza estava bem maior naquele dia, sentia saudade dos meus pais e das minhas melhores amigas. Só quem poderia curar a minha tristeza, mesmo que de forma momentânea, era um copo de bebida alcoólica. Talvez um uísque ou uma vodca, queria apenas que fosse o suficiente para me aquecer e mandar todo aquele vazio embora. Sentei no banco do bar e estava indecisa sobre o que pedir. Mas, foi só eu ver a felicidade alheia, os casais se beijando, os amigos comemorando, que eu tive a certeza de que precisava de um Shot de tequila, com direito a sal e limão.

Estava indo para a terceira rodada da bebida, que era a minha melhor amiga, quando você apareceu. Assim que eu percebi que você falava português, eu me senti completamente em casa. Queria até te abraçar. Você sorriu das minhas loucuras, pediu para eu ir com calma e engatou uma deliciosa conversa comigo. Você não desistiu de mim, mesmo quando eu chorei um pouco, na verdade muito, com saudade de casa. Você disse que iria me mostrar o melhor daquela cidade. Que a partir daquele momento eu só choraria de tanto rir. Acho que foi ali que o meu coração carente começou a se apaixonar por você.

Depois de alguns dias em que saímos junto, você me convidou para viajar. Não posso negar que estava amando toda a nossa aventura com toda a sua experiência de vida, você me ensinou tudo aquilo que nenhum guia conseguiria passar. Era nítido o teu entusiasmos ao falar sobre tantos assuntos. Ao mesmo tempo em que eu amei passar todos aqueles momentos ao teu lado, confesso que não consigo me imaginar em mais nenhuma aventura contigo. Você me falou várias vezes que não era mais um rapaz de trinta anos. Você queria casar, ter três filhos e viver naquele paraíso que você chamava de lar. Quantas vezes você disse que eu era a companheira ideal para viver aquele sonho contigo, mas sinceramente eu não sou.

Meus vinte e três anos de vida clamam por liberdade! Quero continuar desbravando o mundo! Preciso me descobrir! O que eu já aprendi ao meu respeito é que a minha alma tem sérios problemas com os noventa dias. Ela não consegue criar vínculos, laços duradouros. Os nós se desatam com facilidade.

Levanto da cama, tomo um banho enquanto as lágrimas varrem o meu rosto. Troco de roupa e antes de sair te deixo um bilhete. Aquele bilhete que infelizmente você sabia que mais cedo ou mais tarde aconteceria. Não estou no momento de me prender. Necessito descobrir quem realmente eu sou.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

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