LAÇOS ITINERANTES

Confesso que durante um tempo achei que não havia desigualdades, cresci em uma casa boa, em uma região bem localizada, ia a pé, se preferisse, ao shopping, à praia.

Quando eu tinha dez anos percebi que as coisas não eram bem assim. Fui a Disney com os meus pais, pensei que todas as crianças fizessem isso. Mas descobri que a realidade era bem diferente. A minha melhor amiga mal tinha dinheiro para pagar o ônibus, quanto mais bancar uma viagem cara.

Meus pais me falavam que nem todos lutavam pelo que queria. E odeio admitir isso, mas às vezes achava que eles estavam falando a verdade. Até que eu cresci mais um pouco e percebi que isso era mentira. As pessoas lutavam, sim, o problema é que nem todas eram assistidas pelo governo.

Tenho plena certeza de tudo isso que estou falando, porque eu conheço, ou melhor, estou observando pessoas que estão do lado menos valorizado dessa balança social que rege nosso país.

Há algumas semanas me vi obrigada a aceitar ajuda de pessoas simples. Foram mulheres maravilhosas que estenderam a mão para mim no momento em que meus pais fingiram que eu não existia. Com elas aprendi a dar valor para as coisas mais simples. E com elas aprendi que nem todos, ou melhor, a maioria podem se dá ao luxo de dormir um pouco mais antes de pegar no pesado.

Corri feito uma louca para chegar ao ponto de ônibus. Precisava pegar o ônibus das cinco e cinquenta, só assim chegaria à faculdade às sete e vinte. Antes eu acordava às seis e quarenta e cinco. Mal consigo respirar de tanto que eu corri. Pelo menos não perdi o ônibus.

Entro no transporte público já sabendo que a minha viagem não seria tão confortável, provavelmente iria em pé. O que eu não imaginava era que o ônibus estaria lotado! Sim, lotado! Levo uns quinze minutos para conseguir passar pela catraca. E mais uma eternidade para chegar ao final do ônibus, aprendi com as minhas salvadoras que a probabilidade de um assento vagar no fundão é maior. Chego perto do final do ônibus bastante chateada, como eu queria estar dormindo, queria pelo menos estar com o meu carrinho.

Quase sou arremessada quando o motorista dá uma freada brusca. Algumas pessoas perguntam se ele está ficando louco. Ele sorri e pede desculpas. O engraçado é que a maioria ali sabe o seu nome. Uma menina, que está segurando a sua mochila e de mais dois garotos, pede para segurar minha pasta. Quase choro de emoção.

A viagem é longa, o trânsito não ajuda. Meus braços estão cansados de ficar segurando o ferro do teto do ônibus. Já fui machucada algumas vezes, me refiro a empurrões, uma garota quase leva meu óculos​ embora ao passar feito louca por mim. Sei que não adianta reclamar, todos ali querem apenas passar e seguir seu destino.

Vou me aproximando do fim da viagem, consegui sentar tem pouquíssimo tempo. Encosto a cabeça no vidro e reparo em um grupo de mulheres que conversam desde o início da minha viagem. Elas não param de sorrir, falam sobre a novela das nove, acham graça de algo que aconteceu com uma delas no fim de semana. Até o motorista entra na conversa. A cobradora já fazia parte do bate papo há muito tempo.

Admirei aquelas pessoas, às vezes ficava estressada com o trânsito, e olha que isso mal acontecia porque, como eu disse, sempre morei perto dos lugares. Mas as pessoas que bloqueavam o meu caminho me tiravam do sério.

Todavia, as pessoas daqui encontraram uma forma de fazer aquela viajem cansativa em algo prazeroso. Não que fosse legal perder tanto tempo no transporte, mas eles conseguiram criar um elo, um carinho. Até mesmo pelo motorista que normalmente é o mais xingado no trânsito. As pessoas sabiam que os seus dias seriam cansativos, mas queriam fazer valer a pena cada momento. Cada um que chegava ao seu destino se despedia dos outros. E tenho certeza de que se alguém faltasse, eles sentiriam falta.

Naquele ônibus descobri que as pessoas podem até não ter o dinheiro para ir à Disney, mas isso não significa que elas não possam compartilhar seus sonhos, compartilhar risadas com pessoas que assim como você sabe que irá enfrentar um longo dia de trabalho. Porém, essa jornada será regada de muito bom humor.

 

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

Leave a comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *