TAL QUÍMICA – SÓ AGRADECE – CAP.01

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Vejo a vida tão sem graça
Quando não te vejo na minha direção,
Que ilusão não te encontrar
Quando estou longe de casa
Seu sorriso toma minha imaginação,
Não vejo a hora de voltar
Pés descalços, rosto ao vento
Mil histórias pra contar, vem pra cá
Eu hoje não quero mais nada
Só você, pra me abraçar
(Incompleto, Scracho)

Eu estava aproveitando as minhas férias ficando bem deitada na minha cama, completamente enrolada, lendo um conto que se chamava A menina Joaquina e a miudeza das coisas, do escritor Alef Marinho. Queria, quem sabe, ser tão compreensiva como aquela menininha era, deixando, assim, a minha birra de lado. Só porque não aproveitaria todos os dias das minhas férias ao lado do meu namorado, o meu Bernardo.

Não queria que o conto acabasse, apesar de que precisava urgentemente arrumar a minha mala. Sim, em nada eu lembrava aquela jovem que estava super acostumada a arrumar a mala todas às férias para visitar os avós, tios e primos em Minas Gerais. Apesar de que esse ano não teria a tradicional viagem para Minas, pelo menos não para mim. Preciso poupar o meu dinheiro. Além disso, precisava escolher entre passar as férias com a minha família ou aproveitar uma semaninha ao lado do meu menino lindo e dos nossos amigos no paraíso chamado Cabo de Santo Agostinho. Sim, eu fiquei com a segunda opção.

Deixei de procrastinar e comecei a arrumar a minha mala. Ela seria composta basicamente por biquínis, coloquei dez na mala. Não me julguem! Eu amo praia e sempre que posso compro um modelo novo. Tinha vários modelos que me acompanhariam na viagem, cortininha, cropped, hot pant, e, é claro, o bom e velho maiô. Coloquei três vestidos na mala, um era mais do que especial. Pretendia usá-lo em um luau, quem sabe. Além desses itens, não poderia faltar alguns shorts, saia e várias regatas. Não coloquei nenhum casaco. Afinal de contas, estamos em janeiro, onde faz frio nessa época aqui nas praias do nordeste?

Guardei na mala todas as nécessaires que eu iria precisar, as de higiene pessoal, maquiagem e acessórios. Coloquei também meu chinelo, além de um par de tênis, rasteirinhas e um lindo salto alto. Ah! Não poderia me esquecer do meu kindle e também de guardar o livro da Joaquina na bolsa, aquela menininha ainda tinha muito a me ensinar.

O dia amanheceu e confesso que eu não dormir absolutamente NADA. Fui me deitar por volta das duas da manhã. Terminei de arrumar a minha mala por volta desse  horário. Quando me deitei ,simplesmente, não consegui pegar no sono. O calor tomava conta de Maceió. Olha que eu tomei banho de madrugada e dormir com os dois ventiladores ligados. Até pensei em pegar um bom livro para reler. Mas desisti da ideia. Quando finalmente o sono bateu, o despertador tocou.

Depois de conferir se estava tudo trancado na minha casa, peguei a minha mala e fui em direção à casa do Caio, o meu irmão. Morávamos na mesma rua. Ele, a minha cunhada e os meus três sobrinhos não viajariam. Sendo assim, o meu irmão seria o responsável por aguar as plantinhas da dona Elena, nossa mãe.

Bati na porta e para o meu agrado a minha Bianquinha foi quem abriu a porta para mim. Ela encantava a todos com aqueles lindos cabelos cacheados. Além, é claro, de ter um sorriso e um coração ambos encantadores.

–Tia, Isa. –Ela me abraçou assim que eu fechei o portão.

–Minha princesinha! Eu iria sentir falta da minha denguinho. –Cada dia mais alta!

–Você disse isso ontem. –Ela falou entre risos, já que eu fazia cosquinhas nela. –Para, tia Isa!

–Pronto parei! –Falei a abraçando novamente.

Entramos dentro de casa, brinquei um pouco com os meus sobrinhos. Os gêmeos mais lindos do mundo! Caio levou os três filhos para a cozinha. Os meninos estavam crescendo com o hábito de acordar cedo, consequentemente, comer cedo também. Pedro e Davi eram comilões iguais a irmã.

Eu estava sentada no sofá fingindo assimilar algo que a minha cunhada falava. Enquanto levava um pedaço de bolo de limão à boca e bebericava um pouco de suco de maracujá. Letícia como excelente jornalista e cunhada logo percebeu que eu não estava bem.

–Isa, aconteceu alguma coisa? Não era para a senhorita estar animada com a viagem?

–Ai, Letícia, falando a verdade, estou me arrependendo de viajar. –Fui sincera. –Só de pensar que eu ficarei um mês longe do meu namorado. Queria o Bê ao meu lado.

–Isa, quer um conselho? –Eu balancei a cabeça em sinal de positivo. –Aproveita muito bem os seus amigos nessa viagem.

–Eu só tenho uma semana com o Bê e você quer que eu o deixe de lado? Letícia, o Bernardo não vai para Brasília, onde a viagem é bem mais rápida. Ele vai passar um mês na Itália, do outro lado do continente.

–Eu sei, Isa. E é justamente por isso que eu te dei esse conselho. Não estou mandando você deixar o seu namorado de lado. É óbvio que você tem que aproveitar bastante a companhia do Bernardo. Mas não se esqueça de que antes de ele entrar na sua vida, você já tinha amigos. Se você ficar o tempo todo com o Bernardo perderá as resenhas da galera. –Quando eu pensei que ela tinha terminado, Letícia continuou. –Além do mais, você precisa experimentar a saudade. Na boa, vocês não se desgrudam, e isto não é normal. A distância aumentará a saudade. É um tempero a mais para a relação.

–Você tem certeza de que não é formada em psicologia? Muito obrigada pelos conselhos, Letícia. Juro que vou tentar pensar dessa forma. Mas não vai ser nada fácil. –Fiz cara de triste.

–Deixa de frescura e vai aproveitar Cabo de Santo Agostinho, menina.  –Ela sorriu e me abraçou em seguida.

Mal tive tempo de aproveitar os meus sobrinhos. Bernardo chegou, ainda buscaríamos a Cecília e o Vini. Antes de irmos embora,  fiz o meu irmão prometer por tudo que há de mais sagrado na vida que ele iria lá em casa todos os dias fazer uma vistoria no local.  Minha sobrinha implorou para o tio Bernardo trazer alguma boneca “girl power” da Itália para ela. A minha menininha estava se tornando uma mini feminista e eu amava isso.

Assim que entramos no carro a minha energia mudou. Eu sei que precisava colocar em prática tudo aquilo que a minha cunhada falou. Mas o problema era conseguir. O sinal tinha acabado de fechar quando o Bernardo virou em minha direção e perguntou:

–Está tudo bem com você, menina linda? –Ele parecia estar preocupado comigo.

–Só estou cansada, Bê. Não dormi direito. –Eu dei um meio sorriso.

Chegamos até o prédio do Vinícius. Ele e Cecília apareceram apenas com uma mala. Como era de se esperar Vinícius fez piadinha com o tamanho exagerado da minha mala. Mas eu estava sem energias para rebater.

–Isa, você está bem? –Minha amiga perguntou.

–Estou com um pouco de dor de cabeça, Cecília.

A viagem continuava, pelo que eu via da janela ainda estávamos em Alagoas. A minha dor de cabeça aumentava. Graças a Deus eu tinha a mania de andar com uma toalhinha na bolsa de viagem. Peguei a toalha e cobri o rosto. A luminosidade estava me incomodando. Não só ela, o suco de maracujá que eu tinha tomado logo cedo também.

Paramos em um posto de gasolina do interior de Pernambuco. Abrimos as portas do carro para descermos. Mas, de repente, a minha vista escureceu. E eu continuei sentada, respirando fundo. Estava me preparando para descer novamente, quando o Bernardo segurou a minha mão.

–Meu anjo, você está pálida. Também está suando frio. –Pronto! Agora ele tinha ficado realmente preocupado.

–Eu só estou cansada, Bê. Daqui a pouco passa.

Cecília, Alice, Vic e Marcelinha vieram em minha direção. Elas trouxeram água para mim, também estavam preocupadas.

–Obrigada, meninas! –Eu falei. –Eu vou até o banheiro.

–A gente vai com você. –Vic falou.

Fomos ao banheiro. Eu lavei o rosto, queria que aquele mal estar sumisse. Mas ele permanecia. Quando voltei com as meninas, Gael me obrigou a comer algumas bolachas salgadas. Disse que essa mania de querer emagrecer estava me fazendo mal. Balela do meu amigo.

Depois de alguns minutos voltamos para o carro. Vinícius, a pedido de Bernardo, foi dirigindo. Cecília sentou no banco do carona. Eu e Bê fomos no banco de trás. Ele fazia carinho no meu braço, enquanto eu, que estava com a cabeça encostada no peito dele, rezava para chegar logo a Cabo de Santo Agostinho.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

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