A GENTE SE PRENDENDO À TOA

Então você odeia uma pessoas porque suas amigas dizem que você tem que odiar. Uma briga boba entre o segundo e o terceiro ano da escola. Até hoje não entendo o real motivo dessa rixa, quando me dei conta já tinha uma turma toda odiando cada um dos meus amigos, inclusive eu.  Mas está no código dos amigos, ODEIE TODOS QUE ODEIAM SEUS AMIGOS. Sim, eu sei que isso é bem exagerado, mas quando a gente está no colegial tudo é muito mais intenso. A gente não pensa, a gente #SóVai. E eu queria explicar isso pra esse troço que fica no meio do peito, que vez ou outra gosta de ir contra a razão. Eu precisava entender que esse garoto do sorriso mais bobo, que quando passa no corredor eu sou obrigada a fingir que não estou olhando, não pode tirar um sorriso bobo meu também.

A professora passa uma pesquisa sobre a ditadura militar no Brasil, ligo o computador pra fazer logo a pesquisa antes que comece a acumular trabalhos para o fim de semana, cinco minutos depois estou stakeando o Instagram dele. Dou-me conta do que estou fazendo, e realmente não em importo, afinal, não tem ninguém olhando. Vejo as cinco últimas fotos, é uma mistura dele com livros, dele com amigos, dele com animais, dele em festas. Então penso que é bem difícil definir a personalidade dele. E logo percebo alguns pontos em comum, a liberdade de gostar um pouco de tudo.  Vou passando as fotos, o celular trava e de repente começo a tocar na tela aleatoriamente. O celular volta ao normal, quando percebo agora sou uma seguidora dele. O GRITO QUE DEI! Penso logo em todos os xingamentos que serei obrigada a ouvir das minhas amigas, serei punida, com certeza. Depois penso no que as amigas dele, do terrível segundo ano, irão pensar de mim, com certeza seria alvo de piadinhas. E por último, tento imaginar o que ele vai achar quando vê notificação da guria a qual ele odeia, a menina do metido terceirão. Depois desse desastre resolvo ir dormir.

Acordo mais cedo do que o normal, antes de tudo, pego o celular, há uma notificação no meu Insta. OUTRO GRITO QUE DEI! Simplesmente o garoto do sorriso bobo agora me segue também, e não é só isso, ele também curtiu minhas duas últimas fotos. Então lembro que essas são as duas fotos mais estranhas que já postei em minha conta. Mas isso não me importa agora, minha preocupação é com a minha reação quando encontrar esse garoto na escola. Porque o problema não é controlar minha boca, mas controlar o meu rosto, porque se eu não gosto de uma coisa as pessoas já sabem pela minha expressão, e se eu fico com medo, também já sabem. Resolvo não contar pra ninguém ainda, se eu não recebi nenhuma mensagem com um #SUAVACA, quer dizer que minhas amigas ainda não descobriram o acidente.

Chego na escola, passo rapidamente pelo corredor a caminho da minha sala, não quero que ele me veja. TERCEIRO GRITO QUE DEI! Ele estava na frente da minha sala e sorriu diretamente pra mim. O TIRO QUE LEVEI! Abaixei a cabeça e entrei correndo na sala. Acabou as aulas e nenhum comentário das minhas amigas sobre o tal garoto, fico mais tranquila.

Estou me preparando para o jantar, quando percebo o celular não para de vibrar. Dou uma conferida básica nas notificações e a última mensagem: #SUAVACA. Prefiro não abrir o celular, vou jantar. Minha mãe pergunta se tem alguma coisa errada, digo que não. Termino rapidamente, subo ao meu quarto, abro o celular. Tem notificações no Insta e no Whats, escolho ir no Insta primeiro, pois estou adiando ler os xingamentos das minhas amigas. OLHA ELE! sim, o garoto falou por Direct no Insta:

ELE: Oi, tudo bem? Nem acreditei quando vi que você me seguia aqui no Insta. Só não entendi o que foi aquilo na escola hoje.

Passei meia hora tentando encontrar alguma resposta, eu sabia que não poderia falar com ele, mas algo me motivava, talvez o sorriso, talvez uma revolta contra essa falsa ilusão dos meus amigos quererem decidir com quem devo conversar. E eu simplesmente começo a conversar com ele. E, pasmem, é uma das melhores conversas da minha vida. Falamos sobre política, sobre livros, sobre alguns famosos e sobre como ouvir covers, algumas vezes, é bem melhor do que os originais. Quando me toquei tínhamos passado horas conversando. Então digo para ele que tenho que ir e que nos encontraremos na escola.

Resolvi finalmente ler as mensagens das minhas amigas no grupo, tinham coisas absurdas que ultrapassavam os limites da nossa amizade. Eu realmente não sei o que estava acontecendo comigo, mas sabia que era algo muito bom, eu estava gostando. Diante disso, somente mandei um “converso com vocês na escola”.

Chega o outro dia…

Ando pelo corredor diferente do dia anterior, dessa vez de cabeça erguida e sem muita pressa. Chego na porta e encontro de um lado minha amigas todos juntas de braços cruzados, do outro o menino do sorriso bobo. Dou uma pequena pausa. Vou até as minhas amigas e digo: vocês sempre estiverem ao meu lado, vocês são a minha melhor parte, e é por isso que as amo. Mas a outra metade de mim também é maravilhosa. Então peço que a ame também. Vou até o garoto do Insta e digo: “só dá pra saber se acontecer”. E o beijo.

Alef Jordi
Alef Jordi

Estudante de Letras, criador do blog Qualquer Coisa Vira-lata, Potterhead assumido e um sonhador sem limites. Sonha em publicar um livro antes dos 30. E ama promover ações sociais.

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