TAL QUÍMICA – CAP.15 – SAMILA BEZERRA

tal químicaDiga a verdade ponha o dedo na ferida
Você se apaixonou pelos meus erros
E eu perdi as chaves, mas que cabeça minha.
Agora vai ter que ser para toda vida
Somos o que há de melhor…
Somos o que dá pra fazer…
O que não dá pra evitar,
E não se pode escolher…
Se eu tivesse a força que você pensa que eu tenho
Eu gravaria no metal da minha pele o teu desenho
Feitos um pro outro
Feitos pra durar
Uma luz que não produz sombra
(3X4-Engenheiros do Hawaii)

Era domingo e eu tinha combinado de ir à feira de tatuagem com a galera. Marcela estava super animada porque faria a sua primeira tatuagem. Já eu estava muito nervosa. Já estava até prevendo que eu faria vexame. Como iríamos pela manhã comeríamos besteira no almoço, não tínhamos horário para voltar para casa.

Para aliviar a tensão, resolvi lavar o cabelo. Queria prolongar o máximo de tempo que eu conseguisse ficando debaixo do chuveiro. Depois de enrolar bastante, escolhi a roupa do dia. Como havia a hipótese de eu fazer a tatuagem coloquei um soutien de tiras já que a costela seria o local escolhido. Por cima coloquei uma regata cinza cavada e um short jeans, nos pés minhas rasteirinhas cheias de tiras pretas.

Tomei um café da manhã bastante reforçado. Ok! Não sei se podemos considerar um sanduíche de peito de peru com queijo e um copo de suco de goiaba tão reforçado assim, mas para mim, isso já é demais. Nunca fui de ter apetite pela manhã. A minha casa estava vazia, meus pais tinham ido ao supermercado, enquanto meu irmão foi junto com Letícia e as crianças passar o dia na casa da mãe dela. Eram dez e meia da manhã, eu já estava ficando impaciente até que Marcela chegou.

-Desculpa, Isa, pelo atraso. –Ela disse enquanto colocava o CD dos Engenheiros do Hawaii para tocar no carro. –Estou tão animada.

-Eu estou com medo, Marcelinha. –Eu disse.

-Não fica assim amiga. Vai dar tudo certo.

Enquanto Marcela dirigia cantando, eu só conseguia pensar se eu faria a tatuagem. Era óbvio que eu queria me tatuar, inclusive esse era um dos tópicos da minha listinha de coisas para fazer antes dos vinte cinco. Agora o problema era se eu confiaria no tatuador. Vai que ele estivesse com pressa para tatuar outra pessoa.

Não demoramos a chegar. O evento ocorria no centro de convenções da nossa cidade. Marcela achou uma vaga para estacionarmos o carro, depois disso entramos no prédio. Nunca vi tanta tatuagem em um lugar só. Tinha gente com os braços inteiros fechados, outros possuíam vários piercing. Mas o que me chocou foi um homem careca que só tinha os olhos sem ser tatuados. Ele tinha vários desenhos e símbolos variados pelo corpo. Passávamos por ele quando o mesmo foi tirar uma foto com umas meninas, quando ele abriu a boca vi que a sua língua era partida ao meio. Aquilo foi nojento.

-Marcelinha, eu acho que vou esperar lá fora. –Eu estava enjoada.

-Isa, você não precisa fazer tatuagem nenhuma. Só me faz companhia, por favor. –Ela parecia aquele gatinho do filme Shrek que conseguia convencer todo mundo.

-Está bem. –Eu falei desanimada.

Enquanto eu continuava horrorizada com a quantidade de piercing e tatuagens que eu via. Marcela ligou para Cecília, para saber em que parte eles estavam. Tanto Cecília quanto Alice e Vic tinham chegado. Elas davam apoio moral a Gael que fazia mais uma tatuagem.

Quando chegamos ao estúdio de tatuagem vimos Gael deitado, o tatuador tinha a perna esquerda e os dois braços fechados. Ele tatuava no meu amigo uma ancora na panturrilha. Gael já possuía outras tatuagens, mas acho que aquela era a maior. Ela devia ter no mínimo uns seis centímetros. Acho doía já que meu amigo estava quase chorando.

Depois de falar com todos, eu sentei ao lado de Cecília, já que ela estava na ponta perto da porta, e eu queria ficar o mais longe possível daquela maquininha.

-O que você vai fazer, Isa? –Perguntou Vic.

-Vic, desisti de me tatuar.

-Por que, Isa? –Queria saber Cecília.

-Amiga, eu não estou me sentindo bem para fazer isso hoje.

-Calma, Isa. –Disse Marcela.

-Acho tatuagem bonitinha, mas Deus me livre. Não tenho coragem para isso. –Disse Alice.

Gael deu um grito que doeu na minha alma. Imediatamente eu abaixei a cabeça. Eu estava passando mal. Cecília começou a passar a mão nas minhas costas até que o seu celular tocou, pelo que eu pude entender era o Vinícius. Não demorou muito para os meninos chegarem.

-O que aconteceu com a Isa? –Perguntou Vinícius.

-Ela está com medo de fazer a tatuagem. –Cecília explicou.

Bernardo se ajoelhou diante de mim, e pediu para eu levantar a cabeça. Quando me viu ficou bastante assustado, parecia mais que estava vendo um fantasma.

-Isa, você está passando mal.

Isso fez com que a galera inclusive o tatuador me encarassem. Que vergonha!

-É melhor você tirá-la daqui. –Disse o tatuador.

-Ai Meu Deus. –Marcela estava pronta para ajudar quando Bernardo se antecipou.

-Não se preocupem. Eu vou leva-la a lanchonete que tem lá fora.

Ele me ajudou a levantar e passou seu braço pela minha cintura, fazendo com que o peso do meu corpo fosse todo para o seu lado. Eu tinha que admitir, eu estava bastante fraca, suava até frio.

-Vai ficar tudo bem. –Bernardo dizia o tempo todo.

Passamos pelos corredores onde várias pessoas me encaravam. Eu só queria fugir dali e ficar debaixo das cobertas assistindo a uma comédia romântica, de preferência “As patricinhas de Beverly Hills”.

Assim que chegamos à calçada eu pedi para o Bernardo parar. Eu precisava respirar o “ar puro”. Em nenhum momento ele soltou a minha mão. Eu respirei, inspirei, respirei e inspirei várias vezes até que continuei andando. Chegamos à lanchonete que por sorte tinha uma mesa do lado de fora disponível. Bernardo pediu dois sucos de laranja.

-Ei, já passou, você vai ficar bem. –Ele disse enquanto abanava o meu rosto com o cardápio.

-Que vergonha que eu passei. –Eu cobri o rosto com as mãos.

-Isa, não é vergonha nenhuma ter medo de fazer uma tatuagem.

-Eu não fiquei com medo da tatuagem. Eu fiquei com medo da situação toda. Sei lá, acho que tive medo de que o tatuador não me desse atenção. Fizesse a tatuagem de qualquer jeito. Eu sei que isso é coisa da minha cabeça.

-Calma, não precisamos voltar lá.

-Mas e a sua tatuagem?

-Eu não faria lá. –Nesse momento nossos sucos chegaram. –Eu sou fiel ao meu tatuador.

Eu o fiquei encarando, como assim fiel ao tatuador?

-Não me olha com essa cara. –Ele disse rindo. –O meu tatuador é meu amigo desde a infância.

Ele começou a contar a história das suas tatuagens. Bernardo tinha três: um triângulo no braço que ele disse que representava a sua família (representando o passado, o presente e o futuro e a ligação do corpo com a alma), uma pena nas costas, que representava a liberdade e a simplicidade, e a última era um trecho da música do Charlie Brown Junior, nas costas, que também falava sobre fé e liberdade. (Escute o que diz a sua alma. Leve a vida com um pouco mais de calma, deixe que o instinto mais puro te mostre o caminho. Quem tem fé sabe que não está sozinho, ponha fé no seu caminho!)

O papo estava tão bom que só foi interrompido quando um amigo do Bernardo apareceu.

-Moleque, que coincidência te encontrar aqui. –O cara era alto, porém um pouco menor que o Bernardo, ele era magro e tinha cabelos encaracolados, usava uma camisa xadrez e aparentemente não tinha tatuagens a mostra.

-Isa, esse é o Martin.  Martin, essa é a Isa.

-Muito prazer. –Eu disse enquanto apertava a sua mão.

-O prazer é todo meu. –Ele sorriu.

-Acredita que estávamos falando sobre você. –Bernardo contou enquanto Martin sentava conosco.

-Espero que falando bem. –Martin brincou.

Bernardo narrou toda a história de que eu não consegui fazer a tatuagem por medo do local, e principalmente por achar que o tatuador não me daria devida atenção. Martin me tranquilizou dizendo que eles são super profissionais. E não trataria seus clientes de qualquer jeito.

-Isa, o meu estúdio fica bem perto daqui. Quando ocorrem esses eventos a galera toda que se tatuar com os caras renomados. Eu não tenho nenhum cliente e, na boa, eu preciso tatuar alguém. –Ele olhou para o Bernardo que deu um lindo sorriso. –Você aceita que eu te tatue hoje? Seria um presente.

-Martin, eu não posso aceitar isso. Você vai gastar o seu material para não receber nada.

-Isa, eu adoraria ser o cara que tatuou uma menina que há algumas horas estava surtando vendo o trabalho dos maiores tatuadores fodas que existe. Diz que topa, por favor.

Bernardo apertou o meu joelho me encorajando. Eu levantei as mãos. –Está bem. Vocês ganharam. –Martin bateu suas mãos nas minhas. Já Bernardo me deu um beijo demorado na bochecha.

Fomos até o estúdio de Martin. Ele era bastante aconchegante, e tinha várias fotos de pessoas tatuadas espalhadas pelas paredes. Martin pegou seu notebook e perguntou como e onde eu queria a tatuagem.

Eu deitei na maca, coloquei a minha regata embaixo da cabeça. Ele fazia todo o procedimento, e foi bastante sincero comigo, disse que a tatuagem doeria um pouco, já que o local escolhido era a costela, além disso, eu era muito magrinha. Bernardo segurava e beijava a minha mão. Parecia mais que eu estava prestes a entrar no centro cirúrgico. Eu acabei tendo uma crise de riso por causa das suas atitudes, até que ele parou de beijá-las. Mas resolveu me torturar, colocou as músicas do Armandinho para tocar, enquanto isso acariciava a minha mão. Vez ou outra ele fazia uma piada. A dor causada pela tatuagem era bastante chata, mas eu tentei empurrá-la para o fim do meu cérebro. Queria bastante aproveitar a oportunidade para reparar no seu lindo rosto, contar quantos sinais o Bê tinha e entender as diferenças mínimas que existiam entre suas sobrancelhas.

Depois de uma eternidade a tatuagem acabou. Era estranho saber que o meu corpo agora estava marcado com uma frase. Frase essa que gritava na minha cabeça que estava na hora de assumir o que eu sentia pelo Bernardo.

-Ficou perfeito! –Disse Martin. Ele pegou um espelho e me mostrou.

Vida é brisa passageira.

-Muito obrigada, Martin. –Eu falei. –Fiz tanto drama, mas nem doeu tanto.

-Mas também você tinha uma boa distração. –Ele deu um sorriso cúmplice a Bernardo. Eu corei imediatamente.

Quando saímos do estúdio Bernardo me levou até a minha casa. Ele precisava ir até a casa que seus pais moravam para pegar alguns objetos seus que tinha ficado no lugar. Ele pediu para o taxista lhe esperar enquanto me levava até o portão. Sua mão e a minha há muito tempo tinham se tornado uma coisa só.

-Bê, eu gostaria de te agradecer por tudo que você fez comigo. Eu não sei o que seria de mim sem você. –Eu fui sincera.

-Isa, não precisa me agradecer. Você é a princesa mais linda que eu conheço. Minha menina linda.

Eu abaixei a cabeça. –Ei não precisa se esconder. Você sabe que é verdade. –Ele ajeitou uma mecha do meu cabelo. Eu encarei seus olhos verdes intensos por alguns segundos. Até que todas as partes do meu corpo gritaram: eu precisava ter a boca daquele menino colada na minha. Então passei os braços ao redor do seu pescoço e o puxei. Sua boca também sentia urgência pela minha. Bernardo passou os braços ao redor da minha cintura, me tirando do chão. Ficamos nos beijando durante um tempo, até que o taxista impaciente começou a buzinar. Eu encarei Bernardo morta de vergonha. Já ele ao contrário de mim ficou bravo com o motorista.

-É melhor você ir. –Ele olhou novamente para o taxista.

-Não sem antes te dar isso. –Dessa vez o beijo foi mais suave. –Se cuida menina linda. –Ele falou, em seguida beijou minha testa. Quando entrou no táxi percebi que ele discutiu com o motorista.

Eu entrei em casa e fui para o meu quarto. Fiquei deitada na cama sentindo as borboletas dançarem na minha barriga. Dane-se a nova “Isa” que não queria se apaixonar. O Bernardo tinha conquistado o meu coração.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

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