TAL QUÍMICA – CAP.14 – SAMILA BEZERRA

tal químicaNessa carocha de falar que papei anjo
Os seus quinze aparentava vinte anos
Com a malícia de mulher menina
Lendo Capricho foi me moldando
Saco cheio de ter que ler Contigo
Pra entrar no seu papo novela
E foi assim que aprendi a encontrar várias maneiras de te ver
Seu jeito
Seu andar
Me permite gostar uouououo
Sua aura me liberta de um tempo ruim uouo
(Só Aparência-Manitu)

Acho que tinha acontecido um milagre, pela primeira vez nos últimos tempos o meu final de semana não estava comprometido, quer dizer, como eu sabia que tinha compromisso tanto no sábado como no domingo resolvi madrugar a semana inteira, mas isso não era mais novidade há muito tempo. Tudo bem que eu precisava estudar as matérias teóricas, duas para ser mais exata, mas isso não se comparava com o fato de passar um final de semana inteiro em frente a uma prancheta desenhando.

No sábado eu iria para a festa da Vic e tinha prometido ajudar o Bê com a mudança. Como a festa, ou melhor, o almoço começaria por volta de uma da tarde, eu fiquei até às dez da manhã estudando sistemas estruturais. Eu só voltaria a pegar no caderno a noite quando chegasse do apartamento do Bernardo.

Como o dia estava lindo resolvi colocar um macaquinho florido, nos pés uma linda Anabela que a minha mãe tinha me dado de presente, olha que nem era o meu aniversário. Eu fiz uma maquiagem leve, mas caprichei no corretivo. Afinal de contas ninguém precisava saber que eu não dormia há décadas. Eram doze e quarenta quando saí de casa. Caso vocês estejam se perguntando o que eu comprei para a Vic, foi um livro que falava sobre a Austrália. Assim que eu cheguei à festa encontrei a aniversariante conversando com duas garotas.

-Parabéns para você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. –Eu sei foi bastante clichê. Mas ela não ligou, já que foi logo me dando um abraço.

-Parabéns, amiga! Desejo para você tudo de bom hoje e sempre, muita saúde, muita paz, muito dinheiro e é óbvio muito, mas muito amor.

-Isa, muito obrigada. Desejo tudo em dobro para você também. –Ela estava feliz.

-Ia esquecendo, olha aqui o seu presente. –Eu a entreguei. –Enquanto você não vai para a Austrália ler um pouquinho sobre o lugar.

-Valeu, Isa. Tenho certeza que eu vou amar a leitura. –Nos abraçamos novamente.

Eu fui procurar a galera, só a Marcela tinha chegado. Ríamos bastante quando o Gael chegou, eu o encarei e sorri. Eu não conseguia ficar com raiva do meu amigo. Quando ele veio nos cumprimentar eu o abracei. Acho que ele também queria fazer as pazes já que o abraço que ele me deu também foi caloroso.

-Desculpa por tudo. –Eu falei sem soltá-lo. –Amigos?

-Mais que isso, irmãos. – Eu sorri.

Ainda estávamos abraçados quando Alice chegou acompanhada do André, eles namoravam há muito tempo, e era incrível como os dois ainda tinham a mesma sintonia.

-Ei, dona Isabelle, pode largar o Gael. –Essas foram as primeiras palavras da minha amiga assim que nos viu.

-Você vai aceitar isso André? –Eu perguntei fingindo estar indignada.

-Isa, eu não tenho como competir com o Gael. –Ele brincou.

-Que bom que você tem noção. –Falou Gael.

Cecília foi à última a chegar, mas mesmo assim não deixou de aproveitar a zona conosco. Eu me considero uma pessoa tímida, mas quando eu estou com os meus amigos eu me divirto horrores. Dançamos tanto, mais tanto, se você pensou que as músicas foram da Kelly Key, Rouge, Space Girls, Bonde do Tigrão e muitas outras que marcaram a geração dos anos dois mil vocês acertaram. Sim estávamos curtindo uma sessão nostalgia. Acho que a família da Vic pensava que todos nós éramos loucos. Não parou por aí o nosso parabéns foi mais animado, toda vez que a galera pensava que tinha acabado alguém puxava mais uma música e por aí ia.

Era quatro da tarde quando eu me despedi da Vic. Quando Cecília ficou sabendo para onde eu ia, ela resolveu me acompanhar. É claro que ela não estava a fim de ajudar o Bernardo, mesmo eles sendo amigos. O verdadeiro motivo de tanta ajuda era poder ficar um pouquinho perto do namorado. E é claro que ela estava certa. Despedimos do resto da galera e partimos para o apê do Bê que eu tinha certeza deveria estar uma bagunça.

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Para vocês terem noção a porta do apartamento estava aberta e só de chegar perto dava para ver que ali estava cheio de caixas e mais caixas. Batemos só por bater, quando entramos encontramos o Vinícius sem camisa varrendo a sala, mas para a falar a verdade ele não estava chegando a lugar nenhum.

-Meninas, como eu estou feliz de ver vocês. –Ele sorriu. –Principalmente você gata. –Ele abraçou Cecília e a beijou.

-Vou procurar o dono da casa. Ver no que eu posso ajudar. –Aqueles dois me escutaram? É claro que não.

O apartamento era pequeno, já que o Bernardo não estava na sala e nem na cozinha, que era americana e dava para a sala, resolvi ir até os quartos. E em um deles eu o achei em cima da cama trocando a lâmpada. Ah! Só para constar o quarto também estava amarrotado de caixas. Outra coisa, o Bernardo também estava sem camisa, mas ao contrário do Vini que não possuía tatuagens o Bê tinha três e mesmo suado continuava lindo.

-Posso ajudar? –Eu perguntei.

Ele olhou para mim e abriu um imenso sorriso. Acho que ele ficou feliz por ter mais ajudantes. –Ajuda sempre é bem vinda. –Ele desceu da cama e me abraçou. –Boa tarde menina linda.

-Bom tarde menino suado.

-Desculpe. –Ele falou enquanto se afastava de mim.

-Ei, eu estou brincando. –Não reparou como eu também estou suada seu bobo.

-Está disposta mesmo a me ajudar? Olha que aqui está uma loucura. –Ele limpou o excesso do suor na sua camisa verde com a Cruz de Malta do Vasco. Eu ainda iria pegar aquela blusa para mim, mas é óbvio quando ela estivesse limpa.

-Estou sim, é só dizer o que eu tenho que fazer.

-Acho melhor dividir tarefas assim todo mundo acaba mais rápido. O Vini está na sala.

-Uhum. Não desgruda da boca de uma certa estudante de engenharia.

-A Cecília também veio ajudar?

-Sim. –Dava para ver a felicidade estampada na cara dele.

-Vamos para a sala, lá resolvemos quem fica com o que.

Chegando à sala dividimos as atividades. Vinícius lavaria o banheiro, Bernardo lavaria a cozinha e organizaria tudo relacionado a ela. Cecília ficou responsável por deixar a sala brilhando. Já eu fiquei com a difícil tarefa de arrumar o quarto. Eu sei que para muita gente isso seria uma tarefa chata, mas pensem comigo, eu iria arrumar a estante dos livros do Bê. Livros! E era fato que eu faria uma listinha dos livros que eu iria querer emprestado.

Demoramos mais de duas horas arrumando tudo. É claro que o Vini não gastou esse tempo todo no banheiro. Assim que saiu de lá foi arrumar a varanda. Mas depois de muito trabalho organizamos o apê. Acho que já passava das oito da noite quando colocamos todas as caixas na garagem, toda semana não lembro ao certo o dia um pessoal de uma cooperativa ia recolher materiais recicláveis do prédio. Agora as únicas coisas sujas ali éramos nós. Além de sujos estávamos morrendo de fome.

-Bernardo, vamos comer o que? –Queria saber o Vinícius.

-Desculpa galera, mas hoje vai ser pizza com champanhe.

-Champanhe que chique. –Disse Cecília.

-Estava guardando para a primeira festa do apê, mas nós realmente merecemos brindar.

-Concordo. –Eu falei.

Comemos a pizza com champanhe. Como não tínhamos nenhum jogo de tabuleiro para jogar, começamos a relembrar as encrencas que cada um de nós já tínhamos passado. Se eu for contar para você tudo que nós aprontamos teríamos que ficar aqui durante muito tempo. Para resumir tanto o Bernardo como o Vinícius se meteram em uma briga por causa do futebol. Bernardo, não me perguntem como, conseguiu quebrar o pé durante a briga. Já o Vinícius sofreu apenas alguns arranhões. Agora a minha confusão eu precisava compartilhar. Ah! A Cecília mesmo que de forma indireta também estava presente nela.

Eu tinha catorze anos quando essa confusão aconteceu. A nossa tradicional viagem para Minas Gerais tinha sido cancelada uma vez que, a minha avó, dona Natália, e o meu avô, seu Francisco, ambos meus avós paternos estavam doentes. Tanto meu pai como a minha mãe foram para Penedo, cidade histórica que os meus avós estavam morando há pouco tempo. Eu já tinha me conformado em passar a virada do ano em casa lendo o livro Fazendo meu filme, da escritora Paula Pimenta. Jurava que seria assim. Eu não seria a única que ficaria nessa situação, Marcela, Alice e Cecília também ficaria em casa. Até que um anjo chamado Letícia veio iluminar os nossos caminhos.

-Isa, posso entrar. –Ela estava na porta do meu quarto.

-Claro Letícia.

-Isa, eu conversei com os seus pais e eles concordaram em deixar você viajar comigo e com o Caio. Vamos passar três dias na Barra de São Miguel. Topa vir conosco?

-É claro que eu topo. –Eu falei feliz da vida. –Letícia será se a Marcela a Cecília e Alice poderiam ir com a gente? Eu prometo que todas nós iremos nos comportar.

-Isso não depende de mim. Eu preciso conversar com os pais de cada uma delas.

Ainda bem que os meus tios deixaram. Estávamos em festa, menos o meu irmão que não curtiu a ideia de virar “babá” de quatro adolescentes. Apesar de passarmos apenas três dias caprichamos na mala. Quem sabe não conheceríamos alguém? Precisaríamos estar bonitas.

Foi justamente isso que aconteceu. Logo no primeiro dia de viagem conhecemos quatro meninos. Acho que eles eram primos. Parecia coisa de novela, cada um se interessou por um menino e pelo visto eles correspondiam. O que eu gostei era branquinho e tinha o cabelo bem preto. Já o seu sorriso era bem branquinho e que olhos castanhos escuros eram aqueles. Nós loucas como somos colocamos na cabeça que precisávamos ficar com eles na virada do ano. Demos então início à operação ano da sorte.

Nós tínhamos certeza que aqueles meninos tinham nos notado. Fizemos o jogo do olhar, aquele mesmo que precisamos encarar o garoto até ele desviar o olhar. Mas em alguns momentos nós meninas somos as primeiras a desviar. Era dia trinta e um e como teria uma festa na pousada resolvemos ficar mais linda. Lembro que nesse dia eu usei um vestido curto verde. Eu queria ter um ano cheio de sorte.

Quando chegou a hora da festa resolvemos nos separar, já que queríamos que os meninos se aproximassem. Não demorou muito para o Lucas se aproximar. Ele usava uma bermuda cor de caqui e uma camisa polo verde (estávamos combinando), mas notei que ele tinha um copo na mão. Com certeza aquilo não era refrigerante.

-Oi. –Ele falou, mas não parou por aí. –Meu nome é Lucas. –Ele me cumprimentou com dois beijinhos, se ele fosse mineiro me daria mais um.

-Oi, eu sou a Isabelle. –Eu corei. Provoquei tanto o menino, mas agora fiquei nervosa. Vai entender.

-Te achei gata. –Que linguagem era aquela Senhor. –Não consegui te tirar da cabeça nos últimos dias.

Eu teria uma síncope a qualquer momento. –Eu também reparei em você. –Eu sorri para disfarçar o nervosismo. –Quantos anos você tem?

-Tenho dezoito e você princesa? –Ele pousou sua mão direita no meu ombro.

-Catorze, mas faço quinze no dia primeiro de maio. Você é de qual mês.

-Eu completo no dia vinte e três de janeiro. E tenho toda certeza que o feriado é em sua homenagem. –Ele deu um sorriso de garoto convencido e já foi querendo me beijar. Só podia ele era aquariano, era um galinha. Eu recuei.

-Para que time você torce? –Sério que eu perguntei aquilo.

-São Paulo é claro. Você torce por algum? Já sei a resposta, é claro que não. Menina linda como você gasta as horas vagas se maquiando e lendo a Capricho, acertei?

Oi aquele garoto já tinha o defeito de ser são paulino, era aquariano, ou seja, só estava atrás de mais uma conquista. E que história era essa que eu só me maquiava e lia a Capricho? Confesso que eu fazia os dois, mas também era torcedora do Vasco e das boas.

-Você se enganou, eu torço pelo Vasco da Gama.

-Tá de brincadeira, né gata. –Ele começou a rir. –Aquilo lá é time. Acho que você diz que torce por eles porque ainda não aprendeu o que é futebol de verdade. –Ele tentou me beijar de novo.

-Você está enganado. Eu entendo sim de futebol. Se brincar entendo mais do que você. –O palhaço teve outra crise de risada.

-Melhor que eu? Você está louca? Mulher nenhuma entende de futebol. Cansei desse papo, deixa eu beijar essa boca que está me deixando louco há um tempão.

Eu não queria beijar ele. Além de falar mal do meu time, ele era machista. Eu tentei me soltar, mas o idiota não deixou. Fingi que realmente queria ser beijada, mas que antes precisava beber algo já que estava com sede. Imediatamente ele me ofereceu a cerveja. Era óbvio que eu não beberia a cerveja, sempre detestei aquela bebida, mas aceitei. Derrubei todo o conteúdo do copo na cabeça dele.

-Pirou sua maluca? –Ele me soltou como se eu fosse um ferro quente.

-Pirei quando eu quis ficar com um cara machista feito você, seu idiota.

Começamos a gritar um com o outro, até que as meninas, o meu irmão, a Letícia e o Oscar apareceram. Tanto o Oscar como o meu irmão foram para cima dele, mas ninguém bateu em ninguém. No final das contas Alice foi a única que se deu bem. Advinha quem era o garoto que ela ficou? É claro que foi o André, que infelizmente era primo daquele são paulino abusado. Eu não tive o meu beijo de boa sorte, mas tenho certeza que se o Lucas me beijasse o meu ano seria de muito azar.

Vinícius e Bernardo não paravam de rir com essa história. Estavam até chorando.

-Juro que eu queria ver essa cena. –Disse Vinícius.

-Que bom que você colocou esse são paulino no devido lugar dele, – Falou Bernardo.

-Eu tenho certeza que o Lucas nunca esqueceu esse trinta e um de dezembro. –Finalizou Cecília.

E assim em meio às histórias e risadas ficamos conversando até às onze da noite. No dia que esse fatídico episódio ocorreu eu fiquei bastante chateada, mas cinco anos depois ele foi o motivo das risadas tão gostosas que nós demos naquela noite de sábado.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

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