TAL QUÍMICA – CAP. 13 – SAMILA BEZERRA

tal químicaMeu coração pulou
Você chegou, me deixou assim
Com os pés fora do chão
Pensei: Que bom!
Parece, enfim, acordei
Pra renovar meu ser
Faltava mesmo chegar você
Assim, sem me avisar
Pra acelerar um coração
Que já bate pouco
De tanto procurar por outro
Anda cansado
Mas quando você está do lado
Fica louco de satisfação
Solidão nunca mais
Você caiu do céu
Um anjo lindo que apareceu
Com olhos de cristal, me enfeitiçou
Eu nunca vi nada igual
(Frisson-Roupa Nova)

Eu ainda não estava falando com o Gael, e sinceramente isso acabava comigo. Ele era o meu amigo há tanto tempo e eu não acreditava que a nossa amizade seria ameaçada por causa de uma briguinha. A Alice me mandou mensagem no mesmo dia, pedindo desculpas. Eu sei que nenhum dos dois tinha culpa, mas fiquei feliz pelo fato da minha amiga não querer ficar brigada comigo.

Eu estava deitada na minha cama terminando de ler “Elena a filha da princesa”, que livro maravilhoso aquele. Estava praticamente no final quando o meu celular começou a tocar. Era o Bernardo.

-Oi, Bê. –Eu falei enquanto colocava o marca página no livro.

-O que você está fazendo?

-Estava lendo.

-Desculpa, Isa, por ter te tirado do livro.

-Não precisa se desculpar. –Eu disse. – O que devo a honra da sua ligação.

-Bom, como a senhorita é praticamente uma arquiteta, já está fazendo projetos de closets e tudo mais. Eu queria a sua ajuda.

-Ei, eu não sou arquiteta. –Eu protestei. –Você também quer um closet?

-Ainda, mas logo será. –Ele falou. –Não, Isa, eu não quero um closet, queria a sua companhia. Eu vou olhar uns apartamentos hoje e ficaria muito feliz se você viesse comigo. –Ele ficou uns três segundos calados até que perguntou. –Eu terei o prazer de desfrutar da sua companhia?

Eu não aguentei e comecei a rir. –Bê, só você para falar assim.

-Você não topa, é isso?

-É claro que eu topo. –Eu aposto que ele tinha dado o seu meio sorriso.

-Passo na sua casa por volta de uma e meia. Tudo bem para você?

-Tudo ótimo!

-Até daqui a pouco. – Quando pensei que ele tinha terminado, voltou a falar. – Mas uma vez desculpa por te atrapalhar.

-Não atrapalhou, Bê. Eu já estou no finalzinho.

-Posso saber o nome do livro?

-“Elena a filha da princesa”.

-Ah! Boa leitura, minha princesa. Beijos.

-Beijos, menino lindo.

Voltei para o meu livrinho e terminei de ler os dois capítulos que faltava. Que livro era aquele! Eu amava a escrita da Marina, sem dúvida ela era uma das minhas escritoras favoritas. Eu tinha amado os outros livros dela, mas aquele tinha uma pegada de new adult, gênero que eu adorava, e isso foi apenas um dos pontos que deixou a leitura maravilhosa.

Quando eu coloquei o livro na prateleira, fui até o quarto ao lado e vi que minha cunhada estava trocando a roupa dos gêmeos, do Pedro e do Davi, eu amava aqueles dois meninos, eles junto com a irmã tinham se tornado a alegria da casa. Falando em Bianca, ela não desgrudava do lado da mãe, ora ou outra Letícia incentivava a filha a conversar com os irmãozinhos. Só a minha cunhada mesmo para ter disposição de imitar vozes infantis e fazer tudo que ela fazia. Mas aquilo tinha um nome bem pequeno, mas com um significado imenso: ser mãe. Letícia era jornalista, mas desde que descobriu que estava grávida novamente deixou a profissão de lado, ela aproveitou os primeiros meses para preparar a mudança, além, é claro, de ficar muito perto da filha. A Letícia sabia que com a chegada dos gêmeos infelizmente ela não conseguiria dar no início a mesma atenção que Bianca sempre recebeu.

Eu juro que eu estava bem quietinha na porta, mas minha cunhada acabou virando e me viu. Então ela me chamou para vivenciar aquele momento, e não apenas assistir. Quando sentei no chão, ao lado da cama, percebi que a minha cunhada chorava.

-Esses três anjinhos são tão lindos. –Ela enxugou as lágrimas.

-São sim. –Eu a abracei.

-Mas dão um trabalhão. –Terminando de dizer essas palavras ela beijou o topo da cabeça da Bianca. –Mas todo o trabalho vale a pena.

Letícia e meu irmão namoravam desde a época do ensino médio. Ela resolveu fazer jornalismo, enquanto que o meu irmão foi para o lado do direito. Quando casaram minha mãe só faltou morrer, na época eu tinha quinze anos, e tanto o meu irmão quanto a Letícia tinham vinte três. Isso deixou a minha mãe louca, ela chorava dia e noite queria saber como o filho estava se virando. Mas com o passar do tempo, meses para ser mais exata, ela se conformou, inclusive ficou grudada com a Letícia. Sério quem ver de fora acredita que a minha cunhada é a filha da minha mãe e não eu.

Dona Elena estava bastante animada, então resolveu fazer uma lasanha de frango com muito, mais muito queijo. Ah! De sobremesa ela nos serviu um maravilhoso bolo de chocolate. Eu tinha certeza que tinha engordado uns três quilos, e isso não era nada bom. Durante o almoço meus pais planejaram a nossa viagem anual para Minas Gerais, a minha mãe nasceu lá, mas veio para cá quando foi fazer faculdade, digamos que o motivo disso tudo foi o meu pai, os dois se conheceram em uma viagem de carnaval e estão juntos até hoje. E tem gente que fala que amor de carnaval não dar em nada. Voltando para o assunto viagem, a desse ano era mais que especial, iríamos apresentar os novos membros da família para os nossos parentes mineiros.

Depois de almoçar eu fui me arrumar. Estava um tempo super agradável, nada de calor, mas sim ventos gelados. Como eu estava amando o estilo boho chic resolvi colocar um short jeans cintura alta ele tinha aparência de ser gasto, mas ao meu ver esses são os piores, sempre custam mais caro. Junto com ele eu usaria um croped preto, eu adorava aquele tipo de blusa, mas a estrela principal do figurino era um kimono de franjas floral lindo que eu tinha me dado de presente depois de terminar o namoro com o Oscar. Ah! Nos pés preferi colocar um all star preto. Na maquiagem só coloquei o meu bom e velho delineador, máscaras de cílios, além de um batom cor de boca.

Estava arrumando a minha bolsa quando o Bernardo mandou uma mensagem.

(Bernardo) Estou na porta.

(Eu) Estou saindo.

Peguei a chave de casa coloquei na bolsa. Dei tchau para a minha família. Assim que abri o portão o vi. Bernardo estava encostado na lateral do seu carro, uma Pajero TR4 prata. Ele usava uma calça jeans preta com uma camisa preta, nos pés um all star preto. Até mesmo quando ele queria ser discreto Bernardo conseguia ficar mais lindo.

Quando me viu Bernardo me encarou sorrindo logo em seguida. –Cadê aqueles saltos gigantes? –Ele apontou para os meus pés.

-Não estava a fim de colocar.

-Eu também gosto de você assim, baixinha. –Ele disse a última palavra enquanto me abraçava.

-Eu não sou baixinha, Bê. – Eu tentei fazer cara de brava. Eu tinha 1,62 de altura.

Entramos no carro e seguimos rumo aos apartamentos. Bernardo me explicou que tinha marcado de encontrar três corretores. Cada apartamento ficava em uma parte da cidade. E ele rezava para achar logo um lugar definitivo para morar. Assim que Bernardo parou o carro, vimos que um senhor careca de barriga saliente nos esperava.

-Boa tarde. Eu sou o Gomes.

-Boa tarde, viemos dar uma olhada no apartamento.

-Tenho certeza que vocês dois vão amar. –Bernardo olhou para mim e deu um sorrisinho.

O apartamento ficava no quarto andar. Ele era completamente mini, os quartos eram minúsculos, a cozinha nem se fala. A sala não caberia muita coisa. A única coisa naquela história toda que não era minúscula era o aluguel. Por estar localizado perto da orla o valor do apartamento estava tão salgado quanto à água do mar.

-Muito obrigado, Sr. Gomes, por nos mostrar o apartamento, mas ele não faz o meu estilo.

-Mas vocês dois terão várias opções de lazer. –Ele falou. – Temos vários bares, restaurantes, pizzaria, shopping, além, é claro, de ser bem próximo da praia.

-Eu sei, mas realmente não faz nosso estilo. –Terminando de falar aquelas palavras o safado passou a mão nas minhas costas puxando o meu corpo para mais perto do seu, além disso, beijou a minha cabeça.

-Lamento, mas espero que vocês achem um apartamento que atendam todas as necessidades.

Quando chegamos a porta do carro eu dei dois tapas no braço do Bernardo. –Aí isso dói. –Ele disse em meio a um sorriso.

-Que história é essa de dar a entender que estamos juntos? –Eu coloquei a mão da cintura.

-E não estamos? Você estava lá comigo. – Fez graça Bernardo. Fato que o fez levar mais dois tapas. –Coitado dele Isa, o trabalho do cara já é estressante, deixa ele pensar que somos um casal apaixonado. Nunca mais o veremos novamente.

-Sei… –Eu não fiquei convencida daquela resposta.

-Vamos ver os outros apartamentos menina linda. –Ele disse isso enquanto segurava os meus ombros, terminando as palavras beijou a minha testa.

O outro apartamento era imenso. Tinha dois quartos grandes, dois banheiros, uma sala de estar e jantar. Mas não tinha varanda, e o bairro era muito distante da faculdade. Bernardo já tinha perdido as esperanças até que tudo mudou ao olhar o último apartamento que combinara naquele dia. Esse tinha quartos razoáveis, um banheiro, uma sala grande. Tudo bem que a cozinha era pequena, mas a varanda e o fato de ser perto da faculdade compensavam.

-É perfeito. –Ele disse. Então se virou para mim e perguntou. –Você gostou, Isa? –Parecia que a minha opinião era importante para ele.

-É incrível. Além disso, fica perto da minha casa. –Eu sorri.

-Eu fico com ele. –Bernardo falou para o corretor.

Quando saímos do condomínio resolvemos dar uma volta no parque que ficava próximo, já passava das cinco da tarde. Mas o céu continuava claro. Bernardo tirou do carro uma saída de praia, ou melhor, a minha.

-Não estar mais com cheiro de cerveja, eu a lavei.

-Muito obrigada, Bê. –Eu sorri.

Ele forrou a saída de praia depois foi até a barraquinha de comida que ficava a poucos metros de nós e comprou uma pipoca salgada e um algodão doce. Bernardo sentou ao meu lado e me entregou o algodão doce. Enquanto ele comia ficava me encarando.

-O que foi? –Eu perguntei enquanto colocava um bocado de algodão doce na boca.

-Eu gosto de olhar para a minha amiga. –Não sei por que mais eu acabei tirando um pedaço de algodão doce e colocando na boca dele.

-Hum isso está bom. –Ele falou enquanto pegava mais.

-Bê, todos os algodões doces têm o mesmo gosto.

-Não tem, não.

Quando terminamos de comer ele resolveu deitar, eu fiz o mesmo e tenho certeza que foi a melhor decisão. O céu estava com uma cor linda, eu amava o momento do crepúsculo. Eu encostei a minha cabeça no peito do Bernardo, ele ficou dedilhando o meu braço como se fosse um violão. Ficamos um bom tempo calado, foi aí que me veio à cabeça a pergunta que eu ainda não tinha feito a ele.

-Bê, por que você vai embora da casa do Vinícius?

-Eu moro lá de forma provisória. A minha família vai morar em Brasília. E eu não quero ir junto. Além disso, a minha casa será alugada e eu preciso de um lar.

-Buscando a liberdade, gostei.

-E você Isa, tem vontade de morar sozinha?

-Quero fazer intercâmbio antes, para depois morar sozinha.

-Aonde você pretende ir? – Ele parou de usar o meu braço com se fosse um violão.

-Meu sonho é estudar na Inglaterra.

Bernardo respirou como se estivesse aliviado. – Ufa, que susto. Eu também tenho vontade de estudar na Inglaterra. Quem sabe não estudaremos no mesmo lugar. – Ele beijou a minha cabeça e voltou a acariciar o meu braço.

Ficamos no parque por mais quinze minutos, mas infelizmente estava ficando escuro. Além disso, era muito perigoso. Mas se eu pudesse teria estendido ao máximo aquele momento.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

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