TAL QUÍMICA – CAP. 12 – SAMILA BEZERRA

tal químicaDiga quem você é, me diga
Me fale sobre a sua estrada
Me conte sobre a sua vida
Tira a máscara que cobre o seu rosto
Se mostre e eu descubro se eu gosto
Do seu verdadeiro jeito de ser
Ninguém merece ser só mais um bonitinho
Nem transparecer, consciente, inconsequente
Sem se preocupar em ser adulto ou criança
O importante é ser você
(Máscara-Pitty)

Sabe quando você faz um curso na faculdade ou pensa em fazer, e mesmo sem estar formado a sua família e amigos próximos começam a dizer que você fará algo relacionado à sua especialidade para eles? Meio confuso isso, né? Exemplos: você é um estudante de nutrição, gente, não importa em qual período você estará sempre terá um parente pedindo uma receita para emagrecer. E se você faz direito, em algum momento da vida alguém vai pedir ajuda quando precisar resolver algo jurídico. Arquitetura não é diferente. Já ajudei muitas pessoas da minha família a fazer lembrancinha ou até mesmo painéis de aniversários. O fato de fazer arquitetura faz os outros pensar que nós somos excelentes com trabalhos manuais, mas nem sempre isso é verdade. Até mini projeto para casas eu já fiz. Confesso que estava bastante animada para projetar uma cozinha para a minha avó. Mas agora o assunto era bem diferente. A minha tia pediu para que eu fizesse um projeto de um closet para uma amiga dela. Gente, eu estou longe de me formar, além do mais, a cada minuto que passa eu fico lotada de trabalhos acadêmicos.  Mesmo sem querer eu acabei aceitando o desafio. Mas se eu soubesse que daria tanto trabalho teria desistido.

A Débora, a dona do futuro closet, era apaixonada por tudo que via nas revistas e nos perfis do Instagram relacionados à decoração. Acredita que ela veio me dizer que queria armários que cobrissem todas as paredes, além de uma ilha no meio do local. Ah! Tudo tinha que ser dourado e com muito glitter. Até aí tudo bem, mas não seria possível realizar tudo isso por alguns motivos. Primeiro: o espaço que seria o futuro closet tinha apenas 4 metros quadrados, eu tinha quase certeza que uma ilha seria algo impossível naquele espaço. Segundo: dourado com glitter? Eu tenho total consciência que é o cliente quem manda. Mas já imaginou daqui a algum tempo a Débora começa a se enjoar de tudo? Vai dizer que a culpa foi minha. Caberia a mim, fazer um projeto bacana, com o dourado que ela gostava, mas que não ficasse muito brega. Ah! É claro que eu iria cobrar pelo projeto, não muito, mas precisava ganhar algo com aquilo. Afinal de contas estava quebrando a cabeça para poder realizar o sonho da Débora de ter um closet.

Passei a madrugada inteira tentando fazer o projeto da Débora e acabei acordando tarde. Eu me arrumei em tempo recorde, mas precisamente em TRINTA minutos, durante esse tempo tomei banho, escovei os dentes e troquei de roupa, falando em roupa, não tive tempo nem de fazer uma combinação bacana como eu estava acostumada a fazer nos últimos tempos. Mas hoje foi diferente, coloquei um vestido longo florido com uma rasteirinha dourada. Para cobrir as minhas olheiras nada melhor do que uns óculos de sol. Até que não ficou ruim. Viva ao estilo Boho Chic.

Para vocês terem noção de como eu estava atrasada, o meu irmão me deu uma carona, o que era um milagre. Ele detestava pegar a rota que era caminho para a faculdade, mas acho que ter mais dois filhos amoleceu o seu coração hoje.

Graças a Deus as aulas passaram voando, eu estava sentada na lanchonete ora comendo um sanduíche ora lendo o livro, Elena a filha da princesa da escritora Marina Carvalho. Estava tudo movimentado, a galera conversava até que surgiu dois rostinhos super conhecidos, Marcela e Vic, que pareciam estar super empolgadas com a conversa. Pelo menos posso garantir que a Marcelinha estava.

As duas puxaram cadeiras e sentaram, elas traziam dois panfletos informando que haveria uma feira de tatuagem. Taí, uma coisa que eu sempre tive vontade de fazer, mas acabava arrumando uma desculpa. Marcela ficou bastante animada, ela queria fazer pássaros negros perto do ombro.

-Isa, vamos vai ser incrível!

-Você vai fazer a tatoo, né?

-Sim. –Ela estava feliz da vida. –Você também, né?

-Não sei Marcelinha. –Eu falei. –Não conheço o trabalho dos caras.

-Eles vão arrebentar. Eles são fodas.

-Quem são fodas? –Disse Cecília acompanhada de Vinícius, um pouco atrás estava o Bernardo que tinha sido abordado pela Jéssica, uma estudante de engenharia que adorava ser cortejada pelo público masculino.

-Os tatuadores que vão nesse evento. Você também vai com a gente, né Cecília?

-Vocês vão se tatuar? –Perguntou Vinícius.

-Sim. Disse Marcela.

-Não. –Eu falei. Nesse momento Bernardo puxou uma cadeira e sentou ao meu lado, virou para mim e perguntou:

-Você não tem coragem, Isa?

-Eu tenho, mas eu não conheço o trabalho deles.

-Entendo. Eu só fiz as minhas tatuagens com um cara que eu conheço e confio bastante. Se vocês quiserem eu posso leva-las lá.

-Valeu Bernardo, mas eu não quero esperar.

-E você, Isa? –Ele perguntou enquanto folheava o meu livro que estava na mesa.

-Não sei, Bê.

Conversávamos sobre as tatuagens que queríamos fazer. Cecília e Vic não tinham coragem de fazer. Vinícius queria uma tribal na perna, já Bernardo sonhava em fechar o braço. Assim como nós, a galera de engenharia estava lotada de provas para fazer. Uma delas ocorreria em uma semana. Sendo assim, já saberíamos o motivo do sumiço da Cecília, não sei nem se ela iria conosco comemorar o aniversário da Vic. Minha amiga sempre foi assim, poderia tirar um seis em português (apesar de que ela só faltava morrer quando isso acontecia). Agora, não ficar com média dez em matemática, isso não podia. Minha amiga sofria horrores para gabaritar a prova. Eu gostava de cálculo, mas o que a Cecília sentia era amor.

Eu admirava muito a minha amiga, ela passava várias noites em claro estudando para as provas, e o seu esforço fez com que ela passasse de primeira em todas as matérias de cálculo que ela tinha pagado até agora. Já eu sempre fui muito insegura, quando fazíamos prova em dupla sempre sobrava para a Cecília pegar o resultado.

-Planeta terra chamando. –Disse Bernardo em meu ouvido.

Eu sorri. –E você, Bê, já começou a estudar para as provas?

Vinícius começou a rir. –E ele estuda? Parece mais que tem um computador na cabeça. O cara é fera!

-Fazer o que. –Bernardo deu um sorriso torto. –Mas eu vou estudar um pouco hoje.

-Bernardo eu tenho raiva de você. –Disse Cecília.

-Só você? –Brincou Vic.

Quando olhei no relógio vi que mais uma vez naquele dia eu estava atrasada. Precisava imediatamente ir à casa do Gael, ele e a Alice iriam me ajudar com o projeto closet.

-Gente, preciso ir. –Levantei para abraçar cada um deles.

-Você terminou o projeto do closet? –Perguntou Cecília.

-Vou ver se faço isso agora com o Gael e a Alice.

-Boa sorte, arquiteta. –Disse Bernardo enquanto me abraçava.

-Ainda estou longe de ser. –Eu sorri.

-Beijos. –Eu falei para todos.

Fui correndo para a casa do Gael, como disse, ele e Alice me ajudariam com o projeto closet. Eu estava tão apressada que nem passei em casa. Sério, eu não via a hora de terminar logo tudo aquilo. Assim que cheguei a casa dele, Alice não perdeu tempo e começou a analisar. Todos nós estávamos cheios de trabalho para fazer, ela estava sendo uma fofa em ceder um pouco do seu tempo para me ajudar.

-Isa, eu gostei desse projeto, você respeitou as necessidades do cliente. –O projeto que eu tinha desenvolvido para Débora consistia em dois armários opostos, em frente à porta ficaria um penteadeira onde ela se maquiaria, além disso, o local continuaria recebendo iluminação já que teria uma linda janela de correr na mesma parede da penteadeira. Como eu sabia que ela queria cores fiz todos os armários na cor branca, mas por cima eles receberiam adesivos em formato de bolinhas, eles seriam dourados. Não sei se ela gostaria, mas no meu projeto fiz a sugestão de colocar um lustre de teto lindo.

-Que bom que você gostou Alice.

-Deixa eu ver. –Gael pegou o projeto e começou a analisar.

Ele analisava detalhe por detalhe até que o meu celular resolveu dar sinal de vida. Adivinhe quem era!

(Bernardo) Está fazendo o que?

(Eu) Projetos

(Bernardo) A tatoo é um deles?

(Eu) Não seu bobo, quer dizer, não agora.

(Bernardo) Eu sei que você não está fazendo a tatoo. Está trabalhando no closet ainda né?

(Eu) Estou sim. Por que da mensagem então?

(Bernardo) Estava com saudades de conversar com a minha menina linda.

(Eu)  🙂

(Bernardo) Vou deixar você trabalhar. Se cuida. Beijos menina linda.

(Eu) Você também menino lindo. Bjs.

Eu estava tão envolvida com as mensagens que nem percebi quando o Gael começou a falar. Só notei depois que ele me cutucou e disse algo que eu não queria ouvir.

-Isa, o seu projeto está uma porcaria.

Oi? Eu passei um bom tempo planejando tudo aquilo, para agora ele chegar e dizer isso. –Por que Gael?

-Agora você escuta? –Ele falou. –Ele está ótimo. Eu falei isso várias vezes, mas você não desgruda desse celular.

-Vai ver ela está falando com o namorado. –Disse Alice.

-O Bê não é meu namorado. –Eu falei rapidamente.

-Eu sabia que era o Bernardo. –Disse o Gael.

-Mas vocês ficaram na festa. –Alice falou.

-Eu não acredito que a Marcela e a Cecília falaram para vocês. –Eu fiquei um pouco irritada.

-Não foram elas, e sim a Jéssica que viu vocês se beijando perto da piscina. –Alice contou. Então era por isso que aquela garota estava tão estranha comigo, não que ela fosse minha amiga, nunca fomos, mas ela estava distante, mas ao mesmo tempo ficava nos rondando.

-Mas é bom saber que a minha amiga não confia em mim. –Alice estava chateada.

-Nem em mim. –Gael também estava muito chateado.

-Ei, eu confio nos dois. Só a Marcela sabia, e depois eu contei para a Cecília porque ela desconfiou e me perguntou, só isso.

-E por que você não contou para a gente? –Gael queria saber.

-Porque a gente só ficou uma vez, isso não aconteceu de novo. O Bernardo é só meu amigo.

Achei que aquele assunto estava encerrado, sentei no sofá para guardar a cópia do projeto, estojo e celular na bolsa, quando o Gael veio atrás de mim. Tenho certeza que para o meu amigo a conversa estava apenas no início.

-Isabelle, sinto muito, mas o Bernardo não te ver com amiga nem aqui nem na China. Tenha santa paciência. Vocês ficaram e age o tempo todo como se fossem namorados. –Ele disparou.

-Não agimos não. –Eu rebati.

-Porra, Isa. É claro que agem. Qual o problema de assumir que vocês se gostam. Tanto na pizzaria como na praia vocês agiam como um casal apaixonado.

-Gael, eu já falei, o Bernardo é só meu amigo. –Eu duvidava das minhas próprias palavras.

-Eu também sou e você nunca agiu comigo daquela forma, nem mesmo com o Oscar que foi seu namorado.

-Então é isso, você está com ciúmes. –Eu falei.

-Claro que não Isabelle. Porra! –Ele passou a mão pelos cabelos do jeito que fazia quando estava bravo. –Só não quero que você sofra. Porque quando esse menino arranjar uma namorada, essa amizade colorida vai acabar rapidinho.

Eu encarei o Gael por aproximadamente dez segundo. Ok, ele queria o meu bem, mas o que eu menos queria agora na minha vida era que alguém falasse para eu ter cuidado com uma amizade principalmente quando ela estava me fazendo tão bem. Peguei a minha bolsa e me levantei.

-Muito obrigada aos dois por terem analisado o meu projeto. Tenham uma boa tarde!

Eu estava quase na porta quando Alice falou:

-Isa, não fica assim, a gente só quer o seu bem.

-Deixa ela. A Isa sabe o que faz. –Eu notei a mágoa na voz do Gael.

Eu sai antes que eles percebesse que eu estava chorando. Caramba, por que o Gael falou aquelas coisas? Se a minha amizade com o Bê estava uma bagunça, tudo bem, era a nossa bagunça. Eu estava amando ser só a amiga dele. Mas não poderia negar que se visse o Bê com alguma namorada nossa relação não seria mais a mesma. Apesar de ter falado várias coisas que me chatearam, eu tinha plena noção que o Gael estava certo.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

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