TAL QUÍMICA – CAP.08 – SAMILA BEZERRA

tal químicaSe alguém já lhe deu a mão
E não pediu mais nada em troca
Pense bem, pois é um dia especial
Eu sei que não é sempre que a gente encontra
Alguém que faça bem e nos leve deste temporal
O amor é maior que tudo
Do que todos, até a dor se vai
Quando o olhar é natural
Sonhei que as pessoas eram boas
Em um mundo de amor
E acordei nesse mundo marginal
Mas te vejo e sinto
O brilho desse olhar que me acalma
Me traz força pra encarar tudo

(Dia especial- Cidadão quem)

Sinceramente, eu não sei onde estava com a cabeça quando resolvi caprichar tanto na festa do Gael. É óbvio que as meninas ajudaram, mas eu coloquei na cabeça que eu queria que fosse tudo perfeito e isso deu um trabalhão. Claro que o Gael merecia receber uma festa tão linda, mas essa brincadeirinha fez com que eu acumulasse vários trabalhos da faculdade para entregar. Desde o início do curso eu sempre escutava piadinhas do tipo: vida social quem conhece? Abatido por falta de sono. Viciado em café. Eu sempre achei tudo isso a maior besteira. Sempre detestei café, e perdia no máximo algumas noites de sono. Mas isso era na época em que eu fazia os trabalhos na data certa, para evitar o acúmulo. Lembro várias vezes do Oscar reclamando que eu deixava de sair com ele para poder terminar um projeto. Mas agora eu vejo o quanto eu era feliz e não sabia. Mesmo odiando café eu estava viciada nessa bebida. Sempre tinha um copo ao lado da minha mesa. Dormir tinha se tornado um artigo de luxo, nem o soninho que ia das quatro da manhã até as nove eu estava conseguindo ter.  A situação estava tão complicada que eu mal vi a hora que a Marcela se aproximou de mim.

-Acorda, Bela adormecida, senão a galera vai se esquecer da gente. – Eu estava sentada no chão do bloco de arquitetura dormindo.

-Isa, você ainda está viva? –Marcela chacoalhou o meu braço.

-Não sei, Marcelinha. –Eu bocejei.

Para vocês terem noção a única coisa que eu consegui caprichar foi na maquiagem já que eu necessitava esconder as olheiras. Como estava frio e iríamos fazer uma visita a uma igreja antiga que ficava em uma cidadezinha que fazia mais frio ainda, resolvi colocar um look monocromático, uma calça justinha preta com um moletom preto e o mini sneaker preto da Nike. Assim não teria erro.

-Não dormiu direito essa noite?

-Dormir? O que é isso, Marcela? –Eu tentei brincar. –Não durmo desde domingo. A festa do Gael fez com que eu atrasasse os trabalhos de história da arte, o projeto arquitetônico e os estudos para a prova de calculo. Ainda falta a gente fazer a maquete.

-Ai, Isa, cálculo você tira de letra, e eu tenho certeza que você já está terminado o projeto arquitetônico. A maquete combinamos de começar hoje, esqueceu?

-Eu sei, Marcelinha, mas é muita coisa para pouco tempo.

-Falando em festinha, vi um certo casalzinho na pista de dança, mas ao invés de dançar eles não paravam de se beijar.

Marcela reparava em tudo mesmo. –Quem foram esses?

-Não se faça de desentendida, dona Isa.

-Está bem, eu confesso, eu fiquei com o Bê, mas isso não vai interferir na nossa amizade. Já conversamos.

-Como assim, dona Isabelle? Por quê?

-Ah Marcelinha nós conversamos, eu prefiro ser só amiga do Bê, não quero misturar as coisas sabe. Além disso, estou curtindo a minha solteirice.

-Fiquei triste, mas você é quem sabe o que é melhor. Estou do seu lado para o que você precisar. –Ela me abraçou. –Agora vamos porque senão perderemos a viagem.

A viagem durou quase duas horas, tempo suficiente para dormir um pouco. Visitamos igrejas lindas que tinham um estilo barroco. Apesar do foco da viagem não ser estudar história da arte, mas sim, a urbanização de uma cidade planejada do interior. Era impossível não ter uma aula sobre como aquelas belas igrejas foram construídas e qual a importância àqueles traços possuem para representar uma determinada época. Já passava de uma e meia da tarde quando paramos para almoçar. Comemos um nhoque recheado com queijo e frango desfiado com molho de tomate de acompanhamento nada melhor do que um suco de acerola.

O restaurante estava uma zona. As meninas riam das bobagens que os meninos falavam, mas eu percebi que Marcela não desviava a atenção do celular, mas eu tinha quase certeza que ela não estava gostando muito do que lia.

-O que foi, Marcelinha? Algum problema?

-O Arthur queria sair esse final de semana. –Acho que ela não curtiu a ideia.

-E isso não é bom?

-Sinceramente, Isa, eu não sei. –Ela guardou o celular na bolsa. –Eu gosto muito do Arthur, ele quase sempre me faz rir. Mas eu não consigo me apaixonar por ele. Olha que eu já tentei. –Ela abaixou os ombros em forma de rendição. –Na festa do Gael a gente mal ficou. Por minha causa, porque se dependesse dele não nos desgrudaríamos. Você sabe, eu não gosto de relacionamentos grudentos, mas eu gosto do Arthur. Isso está muito confuso. –Ela tentou sorrir.

-Ai, amiga, isso é tão normal. Você tenta gostar do Arthur, mas não consegue que seja da mesma intensidade que ele gosta de você. Já eu gosto muito do Bê, mas não quero abrir mão da amizade. Estamos arranjadas, viu. – Nós duas começamos a rir. –Um brinde a nossa solteirice. –Eu ergui o meu copo.

-Um brinde. –Ela ergueu o copo de vidro e nós batemos um no outro.

——–&——–

Voltamos para faculdade por volta das cinco e meia da tarde. Eu passaria em casa para preparar uma mochila para em seguida ir à casa da Marcela, onde faríamos a maquete. Mas eu precisei mudar os meus planos, pelo menos tive que adiá-los. Quando abri a porta do meu quarto vi que Bianca estava deitada em minha cama e não parava de chorar, chegava a soluçar. Tadinha da minha sobrinha. Quando ela me viu começou a chorar mais ainda (não sei como isso era possível), além disso, correu para me abraçar.

 -A mamãe vai morrer e a culpa é minha. –Isso foi o que eu consegui entender.

-O que aconteceu Bianquinha?

-Eu briguei com a mamãe e agora ela está morrendo por minha causa.

Meu pai foi até o meu quarto, já que percebeu que Bianca conversava com alguém. –Filha que bom que você chegou. Eu preciso ir para o hospital, os seus sobrinhos nascem hoje.

-Já, mas não era só para a semana que vem?

-Eles quiseram adiantar a chegada.

-A minha mãe vai morrer, os meus irmãos também. –E mais choro.

-Ela não vai morrer meu anjo. Pelo contrário, vai voltar com mais duas vidas para casa: os seus irmãos. –O meu pai falou enquanto passava a mão na cabeça de Bianca.

-Por quê a Bianca está chorando tanto? –Eu perguntei quando a minha sobrinha sentou na minha cama.

-Ela queria brincar com a mãe, mas como sabemos, a Letícia anda cansada nos últimos tempos. Aí ela disse que a mãe não gostava mais dela, e pouco tempo depois a Letícia disse que precisava ir para o hospital. –Ele me explicou. –Eu vou para o hospital minha filha. Quando os meninos nascerem eu aviso.

Antes de sair ele deu um beijo em Bianca e pediu para ela se acalmar. Minha sobrinha estava mais calma, inclusive foi para a sala assistir a um filme que passava na Disney. Eu aproveitei o momento para tomar banho, afinal de contas eu estava podre e muito cansada. Eu sabia que não teria como passar a noite na casa da Marcela fazendo a maquete. Provavelmente, quase certeza, precisaria cuidar de Bianca. Sendo assim, tratei de ligar rapidamente para a minha amiga. No segundo toque ela atendeu.

-Marcelinha?

-Isa, que coincidência eu acabei de falar sobre as nossas aventuras de hoje para a galera. Tudo certo para daqui a pouco?

-Então, Marcelinha, eu tenho quase certeza que não vai dar para fazer a maquete hoje. Os meus sobrinhos resolveram nascer.

 -Que maravilhoso, Isa! –Ela devia estar explicando a novidade para a galera. –Você está no hospital?

-Não amiga. Eu estou aqui em casa cuidando da Bianca, mas assim que eles nascerem eu vou levá-la para conhecer os irmãos.

-Não deixa de me avisar. E não se preocupa com a maquete, ainda temos uma semana para fazer.

-Ok, amiga. Beijos.

-Beijinhos.

Assim que eu desliguei, coloquei o celular na bancada e liguei o chuveiro. Nossa tanta coisa estava acontecendo no dia de hoje. Primeiro, foi a “viagem” com o pessoal, agora, o nascimento dos meninos. Eu já estava imaginando a zona que a minha casa ficaria com três crianças, sendo dois recém-nascidos.

Acho que demorei uns bons quinze minutos no banho, queria ter ficado mais, mas não podia deixar a Bianca sozinha. Como estava fazendo um friozinho e já era à noite, eu resolvi colocar uma roupa mais quente, nada melhor então do que uma calça azul com bolinha da Colcci com um moletom cinza. Era oficial: hoje era o dia do moletom. Aproveitei e separei também uma roupa para Bianca. Se eu já estava com frio, imagina a minha sobrinha, principalmente saindo à noite.

Eu tinha acabado de sentar no sofá quando tocaram a campainha, me levantei para ver quem era e confesso que fiquei surpresa ao ver o Bernardo que trazia uma caixa na mão.

-Oi, Bê. –Eu o abracei. –O que devo a honra da sua visita?

-Eu vim ver como a Bianca está. –Sei que isso era ridículo, mas eu fiquei com uma pontinha de inveja. Ele não foi me ver.

-Entra, Bê. –Fomos em direção à sala local onde Bianca permanecia assistindo filme. –Bianquinha, o Bê veio te ver.

 Bernardo foi até a Bianca, imediatamente a minha sobrinha o abraçou. Aquela cena foi linda. Depois do abraço Bernardo entregou a caixa para ela. Quando Bianca abriu encontrou uma linda boneca, mas não era qualquer boneca, era a Cinderela.

-Que linda, tio Bernardo. –Ela o abraçou novamente. –Obrigada. –Ela disse com um lindo sorriso no rosto.

-Você merece Bianquinha. –Ele sorriu para ela. Meu Deus por que o Bernardo insistia em manter aquela barba?

-Bê, não precisava se preocupar com a Bianquinha. –Eu falei.

-Não se preocupa, Isa, ela me lembra a minha priminha que mora na Europa, eu também dei uma boneca para ela quando o irmãozinho mais novo nasceu.

-Tia Isa, faz brigadeiro para a gente. –Pediu Bianca. –Tio Bernardo você vai amar o brigadeiro da tia Isa.

-Eu acho melhor eu ir. –Ele falou olhando nos meus olhos, era como se ele estivesse pedindo para que eu não deixasse que ele fosse embora.

-Não Bê, fica. –Eu realmente queria a companhia dele.

-Tudo bem. –Ele sorriu.

Eu fui para a cozinha preparar o brigadeiro, enquanto isso, os dois ficaram assistindo. Apesar de termos conversado sobre os beijos, eu sabia que de alguma forma a nossa amizade estava diferente. Acho que o fato de só ter tido um namoro sério até hoje fez com que eu não tivesse experiência com os homens. Será que sempre seria assim ou o problema em especial era o Bernardo? Eu queria tanto que a minha vida fosse diferente, mas não dessa forma. Eu não queria perder a amizade dele.

Quando o brigadeiro esfriou, eu peguei três colheres e levei tudo para a sala.

-Vocês querem brigadeiro? –Eu perguntei já sabendo a resposta.

-Sim! –Deu gritinhos Bianca que esperta toda pegou logo a colher.

-Será que é bom mesmo? –Brincou Bernardo antes de colocar a colher na boca.

-É ótimo! –Eu sorri para ele.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

  • Geisa

    Que história gostosa de ler! Estou completamente viciada! Por favor, posta mais! XD

    • Samila Bezerra
      Samila Bezerra

      Estou extremamente feliz por você estar gostando <3 em breve teremos mais capítulos :D

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