TAL QUÍMICA – CAP. 07 – SAMILA BEZERRA

tal químicaLembro do seu corpo, do seu cheiro, do seu gosto
Do tempero do teu beijo, do calor do nosso amor
Me lembro como cantas, pra quem reza, como dorme
Do odor do seu perfume, da cor do seu batom
Me lembro da vontade que me deu
Quando te vi pela primeira vez
Surgiu de um jeito louco que eu gosto
Era presente grego de Deus

(Ultima cena- Manitu)

Eu estava dormindo e tenho certeza que permaneceria naquele estado durante um bom tempo, mas o meu celular fez questão de me acordar. Quase levei um susto quando vi que estava o maior sol no meu quarto, com certeza já passava de meio-dia. O ser que me tirou do meu soninho foi o Gael.

-Oi, Gael. –Eu falei meio sonolenta.

-Não acredito que você acordou agora, dona Isabelle. –Ele respondeu. Dava para ouvir som de forró.

-Acredite! –Eu falei em meio a um bocejo.

-Dá tempo de colocar um biquíni e ir à praia com a gente. –  Eu tenho certeza que ele já estava na praia.

-Valeu pelo convite, mas eu vou ficar por aqui mesmo. Aproveitem bastante.

-Pode deixar beijos.

-Beijos.

Assim que eu desliguei olhei a hora no celular e vi que era apenas DUAS HORAS E VINTE MINUTOS DA TARDE. Isso era uma vergonha. Eu nunca dormi por tanto tempo, tudo bem que eu demorei bastante para pegar no sono na madrugada passada. Eu me levantei e a primeira coisa que vi foi o meu vestido pendurado no encosto da cadeira e como se fosse um remédio para memória, eu me lembrei de tudo que tinha acontecido.

-Bê, eu adoraria passar a noite inteira aqui dançando com você, mas acho que precisamos entrar. –Eu disse ao fim de mais um beijo.

-Pior que você tem razão, senão a galera vai pensar que eu te sequestrei. –Essas palavras foram pronunciadas em meu ouvido.

Voltamos para o salão, mas antes Victória e Felipe, um estudante de educação física com quem a Vic estava ficando, surgiram misteriosamente na nossa frente. A minha amiga pediu para tirar uma foto nossa. Depois que ela tirou fui direto para o banheiro tentar salvar a minha maquiagem: meu batom já não existia há décadas, mas quer saber eu adorei. Foi maravilhoso me sentir desejada por alguém tão lindo como era o Bernardo.

Tudo estava perfeito, Gael estava amando cada detalhe da festa. Ele ainda estava muito emocionado. Acho que mesmo sabendo que era muito amado por todos nós, não tinha passado pela a sua cabeça que faríamos uma festa de boas vindas.

Depois de dançarmos bastante, na festa tocou de tudo. Tinha chegado a hora do discurso do Gael. Ele que estava bastante suado, prova do quanto ele dançou, ele não escondeu as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

-Eu preciso entender que toda vez que eu estou com vocês eu chorarei bastante. Mas que bom que pelo menos é de alegria. –Ele disse enquanto olhava para cada um de nós. –Não existem palavras suficientes para agradecer a essas meninas pela linda festa que fizeram. Marcelinha, Isa, Cecília, Alice e Vic muito obrigado. Saibam que eu sou uma das pessoas mais sortudas do mundo por ter vocês como amigas. –Ele enxugou as lágrimas. –E chega de choro. Eu quero ver todo mundo dançando bastante.

-Viva o Gael! –Puxou o coro a Marcelinha. Que como era de se esperar foi acompanhada por todos. Acho que aquela festa iria até o dia clarear.

Antes de a festa acabar Bernardo conseguiu me “sequestrar” para um canto mais vazio e lá a sessão de beijos recomeçaram. Porém, não durou muito. Bernardo além de beijar bem se mostrou um cavalheiro, fez questão de me fazer companhia no táxi que me levaria para casa.

-O que eu fiz da minha vida. –Eu falei enquanto me jogava na minha cama. –Tanto menino no mundo eu tinha que ficar logo com o Bernardo? O menino que eu estava amando ser amiga.

Não sei se foi ação do além, mas de uma hora para outra Bernardo resolveu me mandar uma mensagem. Eu precisava imediatamente resolver aquele problema que eu tinha me metido.

(Bernardo) Menina linda do sorriso que me traz luz. Isa topa ir ao cinema comigo hoje à noite?

Ele precisava colocar logo o trecho da música, da nossa música? Eu tinha que ser forte, não aguentaria passar por outra decepção nem tão cedo na minha vida.

(Eu) Boa tarde Bê. É claro que eu aceito, preciso falar com você.

(Bernardo) Estou encrencado?

(Eu) É claro que não. J Até mais tarde, bjs.

(Bernardo) Ufa! Beijos menina linda ;D

Eu poderia me odiar futuramente pelo que eu estava disposta a fazer, mas eu não queria e nem podia perder mais um amigo simplesmente por estar gostando demais dele.

Eu tomei um banho e preparei o meu “café da manhã” peguei uma fatia de bolo de limão, já falei para vocês como a minha mãe arrebenta na cozinha, para acompanhar o bolo nada melhor do que um copo de café. Arrumei a bagunça em que a cozinha se encontrava. Toda a minha família tinha ido passar final de semana na chácara da família de Letícia, por isso acabei dormindo tanto: a casa estava um silencio total.

Eram seis horas quando eu fui me arrumar. Não quis fazer uma mega produção, mas também não iria de qualquer jeito, estava amando a minha nova fase fashionista. Eu coloquei um vestido azul marinho de alça, um cardigã cinza, por cima coloquei um cintinho azul para marcar a cintura. Nos pés calcei uma sapatilha cor de ouro com um lacinho lindo da Santa Lolla. Como já era noite eu não gostava de andar com uma bolsa imensa, então peguei uma transversal preta de franjinha que também era da Santa Lolla. Lá caberia perfeitamente meu celular, fones de ouvido, carteira, batom e creme de mão.

Eu cheguei ao shopping às sete e meia. Bernardo já estava me esperando na praça de alimentação. Ele vestia uma roupa despojada e ainda tinha aquela barbinha para fazer, era impossível não me lembrar do efeito que ela causava em minha pele.

-Oi, Isa. –Ele se levantou para me cumprimentar, me deu um beijo demorado em minha bochecha acompanhado de um abraço maravilhoso.

-Oi, Bê. Desculpa pelo atraso. –Meu Deus eu estava bastante nervosa.

-Está tudo bem, Isa? –Ele me perguntou enquanto sentávamos.

-Bê, eu não sei por onde começar. –Eu falei enquanto passava a mão pelo cabelo, tinha mania de fazer aquilo quando estava nervosa.

-Acho que pelo começo, Isa. –Ele tentou descontrair. –Eu fiz alguma coisa de errado?

-Não, Bê. Pelo contrário, mas eu preciso esclarecer uns fatos porque eu não quero magoar ninguém.

-Você está me assustando. –Ele acariciou a minha mão, mas não foi com segundas intenções, mas sim como um amigo faria.

-Bê, antes de tudo eu queria dizer que eu amei tudo que aconteceu ontem, eu me senti uma princesa sabe, quer dizer não sei ao certo se princesa seria a melhor definição, mas me senti querida e senti que você também estava se sentindo assim. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive. –Agora era eu que acariciava a mão dele. –Mas apesar de ter amado toda essa sensação eu fiquei com medo e ainda estou. Bê, eu não sei se você sabe da história, mas tem pouco tempo que eu peguei o meu ex-namorado me traindo com a vizinha dele. Além de perder o meu namorado que estava comigo há quase três anos, eu perdi o meu amigo. E apesar de ter o Gael como amigo, o Oscar foi uma pessoa importante na minha vida. –Eu senti que uma lágrima escorregava pela minha bochecha. –Ele não era vascaíno. –Eu tentei sorrir. –Mas tínhamos muitas coisas em comum, e do nada eu não posso mais falar com ele e nem quero.

Bernardo continuava escutando tudo aquilo que eu tinha para dizer.

-Eu posso estar pagando de louca, Bê. Eu sei que para você significou apenas alguns beijos. Mas eu estou amando ter você como amigo. Não pense que você é o substituto do Oscar, pois não é. Até porque não tem como substituir as pessoas. Além disso, eu não conseguiria voltar a ser amiga dele depois de tudo que ele me fez. Mas do fundo do meu coração eu estou amando ser a sua amiga. Você é um menino lindo tanto por dentro quanto por fora e eu não quero misturar as coisas, sabe. Desculpa se eu falei alguma besteira. –Ao terminar eu enxuguei as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.

Bernardo ficou me encarando, mas logo em seguida pegou as minhas mãos e as beijou.

-Isa, para mim, ontem não foi apenas mais uns beijos, eu curti cada momento que eu passei com você. Mas eu quero que você saiba que eu respeito muito tudo isso que você disse. Eu também estou amando te ter como amiga. Você não me vê apenas como um cara bonito, você enxerga além. Infelizmente nem todas as meninas conseguem me ver da mesma forma como você. –Ele me encarava com seus lindos olhos verdes. –Eu quero e preciso ser o seu amigo. Você é uma das melhores pessoas que cruzaram o meu caminho nos últimos tempos. –Eu agora estava chorando mais ainda. –Agora para de chorar porque senão eu choro também.

Terminado essas palavras ele se levantou e me puxou para um abraço apertado. Para fechar o pacote ele deu um beijo na minha testa.

-Você aceita assistir aos Minions comigo? Prometo que a gente não vai chorar. –Ele disse com um sorriso torto.

-É claro que eu aceito seu bobo. Só não garanto que não vou derramar nenhuma lágrima.

-Se você estar dizendo. –Ele entrelaçou seus dedos nos meus e seguimos rumo à sala de cinema.

Não sei como ficaria a minha amizade com o Bê a partir de agora, mas preferia e precisava ser sincera tanto comigo quanto com ele. Chega de ficar misturando as coisas, eu queria aproveitar a minha solteirice, mas não queria perder a amizade dele.

——–&——–

Eu cheguei em casa por volta das onze da noite. Bernardo mais uma vez fez questão de me dar uma carona. Até agora não sei como ficará a nossa relação, ele evitou me chamar de menina linda, acho que ele está tentando colocar limites na nossa amizade e para falar a verdade acho que será bom. Mas confesso que dói um pouco não ser chamada assim. Eu sei estou parecendo uma menina mimada que uma hora diz que quer uma coisa, porém em seguida não quer mais. Mas é que eu precisava colocar limites para mim mesma. E quer saber acho que assim será melhor.

Passei direto para a cozinha, eu estava morrendo de sede; lá encontrei a minha mãe que estava com quatro caixas de sapato. Dona Elena amava comprar sapatos, e eu amava calçar o mesmo número que ela.

-Boa noite, mãe. –Eu falei enquanto pegava um copo.

-Boa noite minha filha sumida. Como foi a festa?

-Foi ótima, mãe. A Vic postou as fotos.

-Quero ver!

-E eu quero ver os sapatos novos. –Eu apontei para eles.

-Eu vou preparar chocolate quente para nós, ok.

-Ok. –Eu guardei o copo. –Vou tomar banho então.

Depois de tomar banho eu coloquei o meu pijama mais confortável, estávamos no inverno e tinha dias que ele resolvia congelar todo mundo, então nada melhor do que colocar uma calça de flanela com uma camisa de moletom. Eu deitei na minha cama e peguei o notebook, ainda não tinha conseguido olhar todas as fotos. Carreguei a primeira quando a minha mãe entrou no quarto.

-Posso vê as fotos? –Ela perguntou enquanto segurava os dois copos de chocolate quente.

-Antes eu quero ver os sapatos.

-Vou pegar.

Mamãe era muito viciada em comprar sapatos, os quatro novos eram tão lindos. As novas aquisições eram uma bota de cano longo preta, uma sapatilha animal print, um Oxford na cor baked e uma peep toe na cor vinho. Eles eram lindos, mas com certeza minha mãe tinha gastado um dinheirão.

-Mãe, são lindos. –Eu segurava a bota. –Eu quero essa bota para mim.

-Eu posso até lhe emprestar, mas antes eu pretendo estreá-la na viagem para Minas.

-Mais vai estar no verão.

-Eu sei, mas eu e seu pai estamos olhando umas pousadas em Ouro Preto. Queremos fugir da agitação de BH.

-Entendi.

-A senhorita deixe de me enrolar e me mostre logo essas fotos. –Ela colocou os sapatos na cadeira e deitou na cama ao meu lado.

Eu comecei a passar as fotos, em algumas eu estava com as meninas. –Vocês estavam todas lindas. Amei as fantasias da Marcelinha, da Licinha e da Vic. A Cecília não foi para a festa?

-Claro que foi, mãe, olha aqui.

-Uau. que fantasia linda dessa menina!

-Todas elas arrasaram. –Eu mostrei uma foto do Gael.

-Nossa, como ele ficou mais lindo minha filha. Eu também estava com saudades desse menino.

Na última foto além da galera de sempre estava o Vinícius abraçado com a Cecília e o Bernardo, adivinhem, abraçado comigo.

-Esses eu não conheço. Que são esses meninos lindos?

-Esse é o Vinícius e esse é o Bê.

-Hum, Bê! Ele é muito seu amigo? Além de tudo é lindo!

-Mãe!

-O que foi eu não posso admirar o garoto? Eu só falei a verdade, ele é muito lindo.

-Sei… –Quando eu pensei que tinha acabado apareceu uma foto em que eu estava com o Bê perto da piscina, logo após a nossa sessão de beijos.

-Dona Isabelle, o que você dois estavam aprontando?

-Como assim? –Minha mãe conseguia através de uma foto saber que algo tinha acontecido.

-Com quem você voltou para casa e com quem você foi para o cinema?

Agora ela mataria a charada. –Com o Bê.

-Vocês estão ficando? –Sim, ela perguntou na lata.

-Mãe! –Eu conversava sobre tudo com a minha mãe, mas não estava pronta para falar sobre o Bê. Pelo menos eu achava que não estava.

-Ficaram e você gosta dele. –Sim ela afirmou.

-Ficamos sim, mãe. Eu gosto do Bê como amigo e expliquei tudo para ele.

-Como é que é Isabelle?

-Eu falei para o Bê que só quero ser amiga dele, não quero ficar entendeu?

-Por que minha filha? Ele é tão lindo.

-Mãe o Bê não é só lindo por fora é lindo por dentro também. Além disso, torce pelo Vasco e também é fã do Manitu.

-Filha esse menino é perfeito para você.

-Perfeito para ser meu amigo.

-Por que, Isa?

-Mãe, eu perdi o meu amigo e o meu namorado. Eu não quero ficar com o Bê e futuramente perder a amizade dele também.

-Você ainda sente falta do Oscar? –Ela acariciava os meus cabelos.

-Mãe eu me lembro de tudo que o Oscar aprontou nos últimos tempos e isso faz com que eu o deteste. Mas eu me lembro de antes, de quando ele era o amigo do meu irmão mais velho e que com o tempo se tornou o meu amigo também, sabe? Eu não quero perder a amizade do Bê, até porque eu quero aproveitar a minha solteirice. Quero brincar com a Bianquinha, com os gêmeos. Não quero saber de namoro nem tão cedo.

-Você está certa minha filha, mas só toma cuidado, você pode achar um garoto maravilhoso que possa te fazer muito feliz. Não deixa passar por medo de sofrer de novo. Você me promete?

-Eu te prometo mãe. –Eu abracei. –Eu te amo muito sabia?

-Eu que amo você minha menininha.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo...

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