TAL QUÍMICA – CAP.5

tal química
Eu ando tão nervoso pra te escrever
Os versos mais profundos
Eu roço no seu braço e passo sem mexer
Feliz por um segundo
É sempre a mesma cena
Só te ver no corredor
Esqueço do meu texto
Eu fracasso como ator
Só dou vexame
Fico olhando pros seus peitos
Escorrego na escada,
Acho que assim não vai dar jeito
Educação Sentimental
Eu li um anúncio no jornal
Ninguém vai resistir
Se eu usar os meus poderes para o mal
(Educação Sentimental-Kid Abelha)

Estava quase na hora do jogo. Eu quis ir uniformizada, mas eu não deixaria o meu lado fashionista de lado. Como estava quente, coloquei um short jeans folgadinho, peguei minha blusa do Vasco, a tradicional preta com a faixa diagonal branca, esse era um modelo feminino sem aquelas golas que pareciam sufocar. Coloquei um colar que tinha um pingente de ancora que eu amava, nos pés calcei minha sapatilha nude que era cheia de tachinhas, peguei uma bolsa vermelha de lado que combinava com a Cruz de Malta. Ah! É óbvio que levei a minha bandeira do Vasco.

Eu notei que algumas pessoas comentavam sobre o meu traje, não estava nem aí para elas, pois sabia que o meu Vasco ia ganhar. Ao chegar ao apartamento do Vinícius fui surpreendida pelo mesmo, já que ele abriu a porta. Quando ele me viu fez cara de desgosto.

-Isa, pode dar meia volta.

-Há há há muito engraçado você. –Eu fiz cara de poucos amigos.

-Estou brincando, Isa. Vai ser ótimo rir da sua cara.

-Veremos. –Ao passar por ele cumprimentei as meninas que estavam com aquela blusa horrível do time rubro negro.

-Oi, Isa. –Disse Cecília com olhar de cumplicidade.

-Oi, Cecília! Oi, Marcela!

-Esse jogo promete. –Provocou Marcela. Eu acabei rindo.

Depois de cumprimentar as meninas, eu percebi que tinha mais alguém no apartamento. O cheiro de Malbec tomou conta do lugar. Quando me virei vi Bernardo incrivelmente lindo e ainda por cima estava com a blusa preta com a diagonal branca do meu Vasco, o que acrescentou muitos pontos positivos para ele.

-Oi, meninas. –Ele disse, mas percebi que seu olhar se fixou no meu. Ele deu um sorrisinho safado. –Finalmente eu encontrei alguém que tem bom gosto.

-Eu também encontrei. –Eu falei em meio a um sorriso.

Nesse momento a campainha tocou, era Arthur, um estudante de odontologia que estava super interessado em dona Marcela. Ele vestia uma camisa do Santos.

-Você também errou de casa. –Brincou Vinícius.

-Não errou nada. –Disse Marcela. –Vem Arthur.

-Vai torcer para qual time? –Perguntou Bernardo.

Arthur olhou para Marcela que fez cara feia. –É claro que é para o Flamengo.

Bernardo não conteve o riso. – Seu banana.

Todos se ajeitaram na sala. Vinícius que estava praticamente sentado no braço do sofá tinha Cecília ao seu lado; do lado dela estava Marcela que era admirada o tempo todo por Arthur, chegava a ser engraçado.

-Posso sentar aqui? –Perguntou Bernardo.

-Claro. –Nós estávamos no sofá menor.

-E essa bandeira você sempre assisti aos jogos com ela? –Ele perguntou baixinho.

-Digamos que faz parte do ritual. –Eu falei como se fosse um segredo. Ele começou a rir.

A partida tinha começado. Todos estavam tensos. Marcela roía as unhas, já Cecília não demonstrava estar tão interessada na partida. Já eu e Bernardo tínhamos a química perfeita, fazer o que afinal de contas éramos vascaínos.

O time do Flamengo errava muitos passes, já o Vasco não estava sendo competente com as finalizações. Já deve estar dando para imaginar a cena, depois de um tempo boa parte dos torcedores assumem o papel de técnico e é claro que isso aconteceu conosco também.

-O Flamengo está dando muita bobeira. –Começou Arthur. –Com essa marcação vai levar um gol facilmente.

-Cala a boca, santista. –Falou Vinícius bastante irritado.

-A diretoria precisa contratar urgentemente um zagueiro para esse time. –Arthur prosseguiu. – Um zagueiro só, não, o time também precisa de um bom volante e de um lateral esquerdo. Com esse time aí não chega a lugar nenhum.

-Arthur, você vai torcer pelo Flamengo ou vai ficar criticando? –Perguntou Marcela que estava chateadíssima.

-Sinceramente, não tem condições Marcela. Eu até tentei, mas está difícil.

-Cala a boca!!! –Disse Marcela e Vinícius.

Eu não consegui conter o riso, pelo visto Bernardo também não. Rirmos tanto que eu até chorei.

-Calma, Isa. – Disse Bernardo que também enxugava as lágrimas. –Arthur, você faz muito bem em não torcer pelo Flamengo. Esse time não leva ninguém a lugar nenhum.

-Cara, eu só estou falando a verdade. Se eles quiserem ganhar alguma coisa vai ser preciso contratar bons jogadores.

-Arthur, você está me irritando. –Disse Marcela.

-Vou ficar calado. –Ele fez cara de poucos amigos.

Em uma bela jogada bem trabalhada o zagueiro do Vasco fez um bom lançamento para o nosso lateral direito, que ficou trocando passes com o meio campista no intuito de enganar os jogadores adversários. O meia percebeu o bom posicionamento do nosso camisa onze, sendo assim, fez o lançamento para ele, que só teve o trabalho de driblar o goleiro para poder fazer o gol.

-Gooooooooooool!!! –Eu e Bernardo parecíamos dois malucos gritando no apartamento. Até mesmo Arthur vibrou.

-Uê, Arthur não era você que estava torcendo pelo Flamengo. –Brincou Bernardo.

-Você tem certeza que era eu? –Entrou na brincadeira o santista.

O segundo gol não demorou muito para sair, em uma jogada perfeita o nosso lateral esquerdo lançou a bola para o atacante que ficou mais uma vez cara a cara com o goleiro e mais uma vez colocou a bola no fundo do gol.

-Goooooooooooool!!! –Eu estava desconfiada que ficaria rouca até o final daquela partida.

-Porra! Esse gol não valeu. –Reclamou Vinícius.

-É claro que valeu, mané. –Falou Bernardo.

A partida estava no intervalo e Vinícius ainda continuava revoltado.

-Esse juiz está roubando.

-Vinícius aceita que dói menos. –Eu falei enquanto colocava um bocado de pipoca na boca. Quem diria eu estava adorando assistir ao jogo com um bando de flamenguista, e um santista, é claro.

O segundo tempo recomeçou. O Vasco estava mais agressivo. Em uma bobeira o jogador do Flamengo acabou cometendo um pênalti. Eu fiquei bastante nervosa, não gostava de ver as cobranças. Bernardo segurou a minha mão, nessa hora a minha bandeira já estava enrolada nas costas do Bernardo também. Nosso camisa nove correu e marcou o terceiro gol. Bernardo se empolgou tanto que acabou me colocando no braço, era impossível não sentir aquele cheiro maravilhoso de perfume misturado com o suor dele.

-Desisto dessa palhaçada. –Disse Vinícius que saiu marchando em direção ao seu quarto.

-Ele não vai voltar mais? –Perguntou Cecília indignada.

-Eu acho que não. –Disse Bernardo que já sabia que aquilo iria dar problema.

A partida terminou e como já era esperado o Vasco venceu o seu arquirrival pelo placar de três a zero. Arthur ficou chateado com Marcela já que ela tinha dado uns foras no coitado simplesmente pelo fato dele ter criticado o time rubro-negro. Eles foram embora emburrados, mas eu tinha certeza que antes de chegarem à portaria eles fariam as pazes. Cecília estava tão chateada com Vinícius que deu um tchau muito sem graça para a gente e foi embora. Vinícius saiu do quarto e quando percebeu que Cecília tinha ido mesmo embora vestiu a camisa do flamengo (que ele havia retirado quando o time levou o terceiro gol) rapidamente e foi atrás dela. Só tinha sobrado eu e Bernardo. Ele me encarou com aquela carinha de felicidade.

-Ganhamos a partida. –Ele sorriu revelando aquelas lindas covinhas.

-Com louvor. Olha que eu nem queria vir.

-Que bom que você veio. –Seus olhos não desgrudavam dos meus. –Você deu sorte. –Ele sorriu.

Eu estava me preparando para ir embora quando Bernardo me fez um convite que eu não tinha como não aceitar, afinal de contas, ter a sua presença era muito bom.

-Isa, você aceita comer uma pizza comigo? Eu ligo para a sua pizzaria favorita se você quiser, é só falar o nome dela. –Ele parecia àqueles garotos novinhos que ficam sem jeito quando chamam a menina que estão interessados para sair.

-Claro, Bê. –Eu dei um meio sorriso.

Enquanto a pizza não chegava escolhemos um filme para assistir, o escolhido foi Vestida Para Casar, ele era o meu favorito. Eu e Bernardo continuávamos no mesmo sofá, a caixa de pizza permanecia no centro da sala. O filme se encontrava na cena em que um casal principal ia a um bar e cantavam Bennie and the jets. Pelo visto eu não era a única que me divertia, Bernardo parecia estar bastante animado.

-Esse filme é bem legal, mas é tão clichê. –Ele falou.

-Por que você acha isso? –Eu perguntei enquanto olhava para ele.

Ele se projetou para o meu lado, sustentando o corpo inteiro no cotovelo. –Porque é a verdade. Os dois fingem que não se gostam, mas no fim ficarão juntos e vão viver felizes para sempre.

-Você não é romântico? –Eu estava decepcionada com essa geração masculina.

-Não sei, eu nunca namorei, só fico com as meninas.

-Qual é Bernardo? Você não é fofo com essas meninas?

-Sei lá, Isa, eu nunca corri atrás de nenhuma delas, tudo acontece naturalmente, nos conhecemos rola química e pronto.

-Qual é o seu signo? –Não sei por que perguntei aquilo. Essa pergunta eu só fazia para um garoto quando estava afim deles.

-Touro, mas o que isso tem a ver? –Ele ficou sem entender.

Eu sabia! Tinha que ser taurino. –Nada eu só queria conhecer você.

-Logo desse jeito. –Ele brincou. –Olha eu te prometo que quando eu me apaixonar eu conto para você, aí você me ajuda, beleza? –Ele estendeu a mão.

-Beleza! – Eu a segurei.

Estava ficando tarde quando eu resolvi ir embora. Bernardo recusou a minha ajuda para arrumar a casa, ainda fez questão de me levar na minha. Quando chegamos à porta ficamos conversando no carro.

-Nossa esse domingo foi ótimo. –Ele falou olhando para mim.

-E o meu final de semana foi perfeito, tive um sábado de princesa e um domingo maravilhoso graças à vitória do meu Vascão.

Bernardo continuava me encarando, seus olhos verdes eram lindos. –Sábado de princesa? –Ele arqueou a sobrancelha.

-Sim, com direito a esmalte e a maquiagem feita por Bianca. –Ele começou a rir.

-Sério, amei esse domingo. –Ele segurou a minha mão. –Espero te ver amanhã.

-Também espero, Bê. –Eu dei um beijo em sua bochecha. –Tenha uma boa noite.

-Você também, Isa. –Ele também me beijou na bochecha, mas o seu beijo ao contrário do meu foi mais demorado.

Samila Bezerra
Samila Bezerra

Estudante de Arquitetura na Universidade Federal de Alagoas, é apaixonada por livros e quer conhecer o mundo…

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